Challengers Nuno Reis, 19 de Junho de 202411 de Agosto de 2025 Quando Luca Guadagnino anuncia um novo projeto, a atenção do público não é garantida. Apesar de “Io Sono l’Amore” e “Call Me By Your Name” terem sido enormes sucessos da crítica – e no caso do segundo, até de culto – faltava o estrondo de bilheteira. Os anos passavam, e esse título não surgia. Com “Challengers” foi bem diferente. Um único nome foi suficiente para atrair a atenção de meio mundo. A história é sobre ténis, um tema que não costuma funcionar bem com o público. E ainda que o duelo do título seja entre Donaldson e Zweig, a verdade é que os atores não são reconhecidos. Donaldson é interpretado por Mike Faist (que esteve em West Side Story) e Zweig por Josh O’Connor (que vem de “The Crown”). Dois nomes pequenos. O nome forte do elenco era Zendaya. No pico da sua fama em todas as frentes após successos no universo Marvel, em Dune e em Euphoria e com uma legião de fãs considerável. Para a actriz era a oportunidade de finalmente provar o seu valor num papel adulto. Pela primeira vez não era uma adolescente. Aliás, uma das mais divertidas referências do filme é o filho querer ver o filme “Spider-Man: Into the Spider-Verse“. A história do filme é muito simples. Dois tenistas dotados que competem como dupla são imbatíveis. Quando a final de um torneio de singulares os coloca frente a frente, a competição até era amigável. Mas uma interferência da estrela do momento, Tashi (Zendaya), faz com que comecem a levar essa competição a sério. O filme vai partilhando momentos dessas três vidas desde esse fatídico dia até ao presente, quando se voltam a defrontar. Mostrando como pequenas decisões levam a vidas melhores ou piores. Do ponto de vista narrativo, a história até podia ser simples. Mas a forma como é recortada e montada – e especialmente os bocados deixados de fora – dão grande margem para o espectador completar com as peças que imagina. Foi uma escrita corajosa e o argumento prova que não é preciso muito para ser cativante. Do ponto de vista visual, estamos perante algo ímpar. Planos que a transmissão desportiva nem sonha, detalhes que deslumbram e, quando pensamos que o set está decidido, lá vem uma analepse para mudar a forma como vemos o jogo. Como espectadores é difícil decidir um lado. Todos os elementos deste trio de alguma forma são os vilões da história e não se pode dizer que haja heróis. Só pessoas normais (com alguma fama) a tentarem viver a sua vida, através de muitos obstáculos e sob os holofotes de uma comunidade. Como seria de esperar, não é um filme sobre ténis, mas sobre o que se passa fora dos courts. É sobre ambição e desejo. Sobre amizade. Sobre a vida adulta e os sonhos que esquecemos à medida que crescemos. E acima de tudo, sobre como todos os homens são apenas crianças a fazer de conta que são adultos. É delicioso ver em tela grande, mas decerto terá a sua longevidade no ecrã prateado se as pessoas não o esquecerem. Filmes Filmes 2024 Nuno Reis