Clown in a Cornfield Nuno Reis, 5 de Junho de 202511 de Janeiro de 2026 O terror é um género que não passa de moda. O número de estreias este ano deve estar em máximos históricos e esperemos que assim continue. No entanto, a originalidade já teve melhores dias. Basta ver que este ano temos vários Dráculas, um Nosferatu, Lobisomens com fartura, e até um Frankestein. Resultado do fim dos direitos sobre os títulos originais. Mesmo menos velhos como “Monkey Shines” estão a voltar. Mas não só de clássicos vive a bilheteira. Temos também muita gente a tentar fazer algo novo e a simplesmente fracassar. E aí, o rei dos sub-géneros tem de ser o slasher. Umas meninas jeitosas a correr aos gritos. Um monstro escondido com vontade de fazer correr muito sangue… o que pode correr mal? Claro que também essa fórmula está longe dos tempos áureos.Não é todos os dias que temos um Freddie, um Jason ou um Chucky. E quando dizem que vem aí um filme com um palhaço assassino… déjà ju? Mas aqui temos sorte. É que não estamos perante um mero filme, mas a adaptação de um livro. Por estranho que pareça, esse detalhe fez toda a diferença. Não estamos perante algo que quer impressionar com o susto fácil, os sons certos ou as sombras que ocultam algo. Estamos perante uma obra que tinha de ter muito mais para chegar ao leitores sem artifícios do audiovisual. Teve de desenvolver personagens, criar um enredo com profundidade, e construir uma narrativa cativante. Podemos começar a exigir isso a todso os argumentos? Facilitava muito o meu trabalho de ver filmes. Quinn é uma adolescente orfã de mãe que é arrastada pelo pai, médico, para uma pequena vila no meio do Missouri. Um local onde o sinal de telemóvel não é garantido e a variedade de lojas e restaurantes é mínima. Esa povoação existia em torno de uma fábrica de produção de xarope de milho, que era o rendimento de todos os agricultores em volta. Um logótipo com o palhaço Frendo é o símbolo da fábrica e o palhaço indiretamente torna-se a mascote dos locais. Quando um incêndio destrói a fábrica irremediavelmente, a vila fica em crise e a sua existência em risco. Para os adultos, isso é o fim de uma era e da realidade que conhecem. Para os adolescentes, a vila – e tudo o que está associado ao trabalho agrícola – é passado. Eles são a geração dos influencers e um pequeno grupo inclusivamente tornou Frendo no seu tema favorito de vídeos, o que desagrada a muita gente de mais idade. Quinn, apesar de ter acabado de chegar, fica imediatamente associada ao grupo dos vídeos e entra portanto na lista negra de uma vila com mais conflitos geracionais que Footloose. O que não é bom quando Frendo se começa a vingar de quem faz pouco do seu legado como palhaço amigável. O filme tinha tudo para ser ridículo. O meio rural já é quase obrigatório, mas todos os intervenientes estarem meio que obsoletos em costumes e linguagem era um retrato arriscado. Pelo outro lado, os adolecentes estavam também muito estereotipados, não só para o estilo de filme, como para as interações entre eles e com os outros. Contudo, isso cria o corte geracional que era proposto. E ainda que pareça uma produção pequena e com actores quase desconhecidos, consegue dar a sensação de alguns filmes dos anos 80. Katie Douglas como Quinn é a estrela central do filme, bem acompanhada por um elenco jovem que cumpre. Nos adultos o pai (Aaron Abrams) vai construindo a sua presença em segundo plano, mas o melhor é Will Sasso como o xerife local, uma figura com todos os clichés. O terror está bem conseguido. Tensão nos momentos certos, criatividade nas mortes… O vilão não tem a aura sobrenatural que estamos acostumados, mas isso não o torna menos assustador. Sabemos bem que segurar uma forcilha ou uma moto-serra tornam qualquer um em algo assustador! E a partir daí há só um momento em que os sobreviventes conseguem demasiado tempo para se organizarem. É uma falha comum, mas aqui pareceu ainda mais longo devido à situação de desvantagem clara em que estavam. O detalhe que eleva este filme a algo melhor do que um slasher são as palavras do guião. Temos várias frases deliciosas, tanto em monólogo como em conversas, algumas que “escapam” sem pensar no calor do momento, e outras que tentam ser a catch phrase da personagem. Há de tudo. E apesar de vários tiros ao lado, isso dá uma inesperada diversão ao filme nos momentos em que se poderia tornar banal. Foi por isso que me lembrei quem realizava: Eli Craig, the “Tucker and Dale vs Evil”. Realmente podemos contar com ele para nos surpreender. Quando chegamos ao climax é dada uma justificação para o que já se tinha concluído. Temos mais algumas mortes, e depois vamos para um final com nova tentativa de pianda fácil, mas que merece tolerância pois queremos uma sequela. Em suma, é tudo o que esperavamos, repete fórmulas, mas dá-lhe um toque de criatividade e tem belas falas. Para já, dos melhores terrores do ano. Filmes Filmes 2025 Nuno Reis