Conan the Barbarian (1982) Nuno Reis, 27 de Outubro de 202527 de Outubro de 2025 Algumas lendas são tão antigas que não se conhecem a sua origem e as assumimos como história não documentada. Outras, só precisavam de uma nova visão para se tornarem lenda. Robert E. Howard foi popular num nicho enquanto era vivo. A sua morte prematura (com apenas trinta anos) não impediu que lhe dessem o nome de criador do sword and sorcery, principalmente pelo que fez com Conan. Os livros ganharam mais fama a partir dos anos 50 e com ilustrações de Frank Lanzetta chegaram a todo o mundo. E quando o realizador John Milius adaptou as aventuras pulp de Howard a cinema, acidentalmente construiu um mito. No início dos anos 80, Hollywood procurava novos heróis. Os anos 70 tinham sido muito negros (Vietname e Watergate) e eram precisos faróis. Ídolos físicos capazes de encarnar uma nova era. Foi quando tivemos Rocky Balboa, Indiana Jones, Superman, Flash Gordon, Snake Plissen. E Milius, que tinha escrito filmes para o actor Clint Eastwood e “Apocalipse Now”, sabia o que era masculinidade. Com Conan, co-escrito com Oliver Stone, iria fazer o mesmo que Howard e gritar para ser ouvido. O filme começa com uma mensagem que só percebemos ao rever. O pai de Conan forja uma espada. O som do martelo contra o metal numa paisagem deserta. A força, o calor e o frio vão moldar o aço indestrutível. E subitamente todo esse modeo de vida deixa de existir. Um exército arrasa a aldeia, queima as casas e decapita as pessoas. Conan é acorrentado, escravizado, atirado ao moinho onde passará anos a girar a roda e a ganhar músculo. Até que o pequeno rapaz se torna Schwarzenegger. O corpo mais definido que o cinema já viu. Diz-se que ele não sabe interpretar porque para ele existem estes papéis. Não precisa de ter expressões faciais pois é o corpo que passa a mensagem. E como li uma vez de forma muito esclarecedora, este corpo é uma escultura. Quando Conan deixa o moinho, só pensa em vingança. Mas vai ter de aprender mais coisas sobre a vida. Por sorte a sua força é a melhor moeda de troca. Quando conhece Valeria (Sandahl Bergman), adia a sua missão pessoal. É como se tivesse voltado a ser um homem. Mas sem ela, volta a ser o bárbaro. Uma vida sem significado ou objectivos além da vingança. Do outro lado está Thulsa Doom com a presença e a voz de James Earl Jones. Com poder absoluto sobre a vida e a vontade de quem o rodeia, é o inimigo que Conan procurava, mas também o seu inverso. O confronto final não é de espadas, mas de ideais. E tal como no início do filme, e na intimidade com Valeria, o fogo volta a marcar uma enorme presença. São momentos que definem, e o fogo é fundamental para a moldagem. Depois de uma década em que a guerra significava tudo, este filme é o triunfo do indivíduo sobre as tribos e os exércitos. O culto do corpo e da individualidade como a derradeira forma de liberdade. E de solidão. Conan começa em família e feliz, a ver pessoas trabalhar. Termina sozinho, num trono, renegando até o seu deus. O mito do self made man como ratoeira que leva para uma vida incompleta. Passaram mais de quarenta anos e nenhum filme se compara. Nem a sequela, nem o remake souberam o que fazer. É cinema épico e metafórico com várias camadas escondidas. Foi fiel a Howard? Não, foi fiel a Milius e fez uma obra adequada à sua era e à sociedade. E de alguma forma, acabei este texto sem referir Max von Sydow. Uma lenda reduzida a nota de rodapé… Sem outra figura paterna, Conan tem no rei Osric o primeiro exemplo de porte, classe e presença magnética. E também de prioridades e valores. Quando Conan se senta num trono temos um vislumbre desse efeito. Filmes Filmes 1980's ConanGuerreirosMagiaNuno ReisSword and SorceryViagem