Diciannove Nuno Reis, 16 de Janeiro de 202619 de Janeiro de 2026 O retrato de uma geração e de todas as outras Diciannove. Dezanove. Pelo título esperava um filme coming of age à moda italiana. A informação online era pouca. A maioria do elenco nem estava no IMDB e dos seis que surgem, apenas um tinha carreira antes deste projeto. Até o realizador tinha passado directamennte de estagiário numa mini-série para a cadeira principal. Não fosse um produtor de seu nome e se calhar o filme teria passado despercebido. A história acompanha Leonardo que, com dezanove anos, se muda de Palermo para Londres para estudar Gestão. Tem lá a irmã Arianna e uma colega de secundário pelo que não está sozinho. Mas não gosta da pressão e muda-se para Siena para estudar Literatura Clássica. De que também não gosta. Não é um filme para todos. Todos sentimos dificuldade em interpretar os filmes feitos sobre uma geração diferente, mas este vai mais além. Percebemos que Leonardo foge, não por causa das várias críticas que as raparigas lhe fazem, mas simplesmente por serem pessoas. Por estarem lá. Ele quer isolar-se e ser ele mesmo. Isso costuma significar algum segredo, como ser homossexual, mas aqui era mais. Ele não estava preparado para Londres. Parecia o caminho fácil, mas não era o que desejava. Isso simboliza a indecisão permanente que a vida é, em especial quando se é tão jovem. Veremos mais tarde que a irmã é das pessoas mais importantes para ele. Pelo menos a imagem que ela vai trasnmitir aos pais de como ele está. Quando decide seguir o seu sonho, a literatura, começamos a ver que é anti-social. Isola-se dos colegas. Depois vai colidir com o professor que é uma autoridade na matéria. Damos alguma razão a Leonardo. O professor não é muito receptivo a outras opiniões, mas até lhe dá uma nota boa. Aqui o filme foca-se na arrogância epistémica da juventude. Não aceita a opinião desejada no currículo porque a sua é melhor. Então começamos a aperceber-nos de outras coisas. O cada vez maior isolamento. Os pensamentos suicidas. A obsessão com algumas obras. Se já foi complicado perceber as notas em Itália (não são de 0-20 como cá, são 0-30 e é preciso 18 para passar), quando começa a embrenhar-se nas obras é deixar falar. Se tem razão ou está louco não sabemos. Foge a todos os estigmas do herói. Entra num declínio perigoso, mas que disfarça bem.E por incrível que pareça, é um adolescente credível. Só que daqueles sobre os quais não fazem filmes. O filme também foge aos padrões. Com umas transições de cena que nos fazem pensar se a fita encravou e alguns momentos que foram retirados das obras que Leonardo acabou de ler. O filme é um adolescente sem rumo. Mesmo sexualmente só dá pequenas sugestões do que pode acontecer. Tudo é subjectivo e fica ao livre arbítrio do espectador para interpretar consoante as próprias experiências de juventude. A tal terceira parte que a sinopse sugere, são apenas uns minutos que o ajudam a perceber que existem mais pessoas no mundo com capacidade intelectual e que o desdém pela sociedade no seu todo pode ser um exagero. A vida tem mais para dar que os anos da adolescência. É uma obra traiçoeira. Passa uma imagem do que vai ser para se tornar outra, e dá azo a diferentes interpretações o que pode alimentar longas tertúlias. Exige alguma paciência, mas não é tempo mal passado. Filmes Filmes 2025 adolescentesNuno ReisViagem