Dirty Angels Nuno Reis, 1 de Setembro de 202525 de Outubro de 2025 Somos ensinados desde pequenos que os monstros existem. É uma lição importante para a vida adulta. Podem não ser grandes e peludos de garras afiadas, mas estão por aí, e fazem vítimas. Temos de estar sempre alerta. Também somos ensinados desde pequenos que os heróis existem. E nem sempre são forte guerreiros vindos de longe com armas mágicas. Por vezes, é um miúdo que vê uma injustiça e se ergue contra ela. Mesmo que não consiga mudar nada no imediato, dá o exemplo. O nome pode ser esquecido, mas um pequeno acto pode ser o primeiro dominó de algo maior e imparável. Neste filme temos muitos monstros. Numa zona disputada por talibãs e ISIS, algumas adolescentes foram feitas reféns. Serem mulheres é mau. Estarem a estudar é pior. Nas mãos desses monstros, qualquer destino será trágico. Eis que se ergue o único tipo de herói credível. Jake (Eva Green) está a meio de um julgamento tribunal marcial. Pedem-lhe que esqueça essa diatribes faça uma missão urgente e secreta para salvar essas crianças. Mal-humorada, rabugenta, e com um nome falso que justifica esse comportamento, ela vai fazer o que é preciso. Não porque quer ou pela glória. Apenas porque não confia em ninguém mais para fazer o que é correcto. Mesmo que seja sem informação, sem armas, sem apoio, em terreno hostil… Uma missão impossível. E assim parte, com uma equipa de quem nem quer saber os nomes, para um território que bem conhece e onde só a morte é garantida. Acaba por ser semelhante a muitos outros filmes que vimos desde a Tempestade do Deserto. O terreno ficou diferente quando a linha que separa os bons dos maus se esbateu. Agora temos alianças com um inimigo para destruir outro. Guerreiros de diferentes nacionalidades a lutarem lado a lado, e pessoas da mesma família a lutarem em lados opostos. Não se sabe em quem confiar, pelo que “a causa” tem de ser motivo suficiente para matar e para morrer. Não é o primeiro filme que une a vertente da espionagem com a da batalha convencional, estre apenas tem a jogada de mestre de se vender como sendo “mulheres contra fundamentalistas”. Pega num elenco com alguns nomes (Ruby Rose e Maria Bakalova), mas centra-se em Green e na rede de contactos e de favores que foi construindo. Pequenos peões num jogo interminável em que não há nenhuma facção livre de pecado – todos se tornaram em monstros para combater outros monstros – mas em que ainda há uma réstia de decência e humanidade em cada indivíduo. São esses os heróis do século XXI. Sendo honesto, pela sinopse esperava um “Argo” no feminino. Aqui o estratagema acaba por ser só o pretexto de entrada, não voltando a ser usado. Depois é guerra pura, com um pouco de espionagem pelo meio. Luta corpo-a-corpo, com espadas, pistolas, metrelhadoras, lança-foguetes, temso um pouco de tudo. Esta violência excessiva cansa e por isso o filme parece um pouco longo. No entanto, por ter diálogos poderosos – e nos idiomas das personagens, em vez de magicamente falarem todos em inglês para conveniência do espectador – temos algum descanso para os olhos e alimento para a alma. E o facto de serem mulheres não é exacerbado, são tratadas sempre como guerreiras e o género só duas vezes é referido (atendendo ao contexto, esperava que fosse sempre). Não é um filme que se queira ver ou sequer uma inspiração para actos nobres. Mas é um trabalho acima da média entre os inúmeros que saíram com temáticas do género. E dá um novo significado a camaradas de armas. Filmes Filmes 2024 adolescentesMulher forteMulheresNuno ReisOperação militar