Idiocracy (2006) Nuno Reis, 20 de Junho de 202523 de Outubro de 2025 Dizer que vivemos tempos interessantes é um eufemismo. Estamos numa época em que o diálogo não tem resultados – quando ao menos se tenta dialogar – e em que tudo parece ir desta para melhor. Um dos possíveis motivos para isso é que a meritocracia deixou de funcionar. Vivemos numa era que incentiva a estupidez, recompensa a mediocridade e elege gente incompetente. Não vou dizer nomes, cada um que pense no exemplo que quiser. Isso recordou-me logo de uma das histórias curtas mais incríveis que já li de ficção-científica, “Null-P” de William Tenn. Nessa história a sociedade encontra o homem mais médio que existe, elege-o e começa a promover a mediocridade, levando ao declínio completo. Este filme com toques de FC explora esse tema: se uma sociedade supostamente evoluida impedir a teoria de evolução de funcionar, continuar a facilitar a reprodução em massa de membros pouco brilhantes, ao mesmo tempo que os inteligentes cada vez têm menos filhos, acabará por ter uma diversidade genética estupidificada ao extremo. E mesmo sem genética, a sociedade de consumo está feita para ocupar as mentes, sem treinar o cérebro. A história acompanha Joe Bauers, o soldado mais mediano em que se possa pensar. Não querendo desperdiçar bons soldados numa experiência científica, o exército dos EUA escolhe Joe para testar a máquina de hibernação. A ele junta uma mulher mediana da rua e o plano é ver os efeitos de se ficar congelado por um ano. Só que esse programa é tão secreto que eles acabam esquecidos e só acordam 500 anos depois. Nessa altura o país transformou-se de uma forma assustadora. A sociedade funciona, mas cada indivíduo é completamente idiota. O mundo está no limiar da destruição e, de alguma forma, Joe vai ter de resolver tudo sozinho pois o presidente assim decretou. A sensação de se ser a pessoa mais inteligente numa sala não é boa. Quando isso se aplica a uma cidade, deixa de ser uma responsabilidade e passa a ser um fator de stress. Quando se é mediano e todo o país é não só mais burro, mas completamente idiota, perde-se a capacidade de pensar. Como resolver aquilo que ninguém conseguiu fazer? Com quem trocar ideias se ninguém nos consegue acompanhar o raciocínio? Por sorte é uma comédia, portanto há vários momentos para explorar a estupidez. Luke Wilson no pico da fama é a estrela e tem cara de pessoa mediana. A genial Maya Rudolph (já com um bom currículo na comédia por essa altura) tem um papel pequeno que não explora ao máximo, mas onde foge ao seu habitual. E Dax Shepard tem um dos seus melhores papéis apenas pela capacidade de manter a expressão facial. O filme consegue diversificar a temática o suficiente para, mesmo sendo cansativo, não ser demasiado cansativo. Tem demasiadas situações completamente estúpidas, mas como a temática era essa, até são adequadas. Será essa a solução para os filmes serem bem recebidos? Identificar os pontos fracos e esticá-los para serem a força do filme? Apesar disso a realização (Mike Judge, de “Office Space” “Beavis and Butthead” e “Silicon Valley”) vendo hoje é demasiado datada não convence. Apesar de ser um tema demasiado pesado para uma longa – teria sido interessante ver como clips isolados – foi um filme bastante bem recebido considerando a pouca distribuição que teve. Com o passar dos anos e o aproximar vertiginoso da sociedade retratada nesta ficção, será interessante tirar algumas lições antecipadamente para nos prepararmos. Pelo menos saberemos que o mundo está irremediavelmente perdido. Filmes Filmes 2006 Nuno Reis