Snakes on a Plane (2006) Nuno Reis, 19 de Outubro de 202523 de Outubro de 2025 Quando um filme cobre todo o espectro da qualidade. Hoje vamos recuar até um filme do qual todos ouviram falar. Conseguiu ser simultaneamente um aproveitamento genial e um fenómeno completamente idiota. Este filme não teria existido sem a internet, mas essa internet quase o destruiu. Um filme que se tornou mau de propósito para chegar a mais gente, para ser criticado em grande escala. Falo, claro, de “Snakes on a Plane”. Hoje em dia com a Internet, toda a gente fala sobre todos os temas. As respostas que recebe são de dois tipos. Ou é o silêncio – porque toda a gente despeja informação e ninguém tem tempo para a ler – ou é bajulação dos seguidores que absorvem tudo o que se lhes diga como verdade absoluta. Por isso vivemos numa era de fake news. Podemos dizer o que quisermos com total ignorância sem ouvir uma única voz discordante. Dunning–Kruger ao seu máximo. Em 2006 era o oposto. O YouTube ainda não era da Google e o Facebook era uma rede para universitários. Este blog já existia assim como muito outros, e as pessoas recorriam a esses espaços especializados para falar. Por isso era muito fácil ouvir especialistas e ter as nossoas opiniões justificadas ou abatidas com informação. Era uma injecção de cultura em estado bruto. Como ir a um festival sem sair de casa. Este filme tornou-se um fenómeno viral sem precedentes. O título era tão bom que os fãs começaram a contribuir para isso com imagens, cartazes, trailers e tudo mais. O marketing não precisou de nenhum investimento. Quando a New Line viu o que estava a acontecer até pensou em dar um título melhor, mas Samuel L. Jackson disse só lá que estava pelo título e sem isso abandonaria o projeto. As pessoas queriam um filme série B, mesmo que não estivessem preparadas para algo tão mau. É que o conceito ia ser levado ao absurdo: cobras num avião. Não há metáforas, não há surpresas ou histórias secundárias. É conteúdo da película é exactamente o que está escrito na lata. Como chegamos ao avião? Sean Jones testemunha um crime no Hawaii que envolve um suspeito de crimes federais. É escoltado pelo agente Flynn (Samuel L. Jackson) num voo para Los Angeles. Só que o poderoso alegado criminoso decide eliminar a testemunha de forma invulgar, brutal, e com muitos danos colaterais: soltando centenas de serpentes venenosas no avião. E é isso. Depois do embarque, todo o filme vai ter lugar num espaço confinado com muitas cobras metidas nos sítios mais improváveis. O único fenómeno semelhante foi “Sharknado” em que tubarões aero-transportados apareciam onde desse jeito. Antes disso, todos os filmes de nicho eram underground. Eram actores maus, mal dirigidos, com ideias bacocas e efeitos hilariantes. Quem o ia ver sabia ao que ia. Não tinham distribuição mundial e um elenco com Samuel Jackson, Julianna Margulies, Bobby Cannavale e Kenan Thompson. Este falso blockbuster ia ser o underdog dos multiplexes. A voz da Internet a definir o que queria ver. Isso porque várias contribuições da Internet acabaram por chegar ao produto final. Terá sido adivinhação? Fugas de informação? Aleatoriedade? Previsibilidade? Um pouco de tudo. O filme manteve o seu estatuto de média produção, deixou os rumores circularem, e foi para as salas. A internet podia ser um parceiro criativo no processo cinematográfico, desde que com o devido bom senso. Isso entretanto perdeu-se e deixam demasiada gente opinar, mas na altura e com o devido doseamento, era refrescante. Num mundo em que se gastam milhões a fazer filmes idênticos entre si, mas se guardam os guiões como segredos de Estado, é muito refrescante um filme que simplesmente diz: “Está aqui um avião com o Samuel Jackson e cobras“. Ninguém pediu um grande filme. Era terror série B adaptado ao grande público, vários momentos de humor, uma ciência sem sentido. Mas é honesto. Quem vai ver um filme sobre cobras num avião, não espera algo credível. Claro que tem limitações, mas cumpre o que se esperava dele. Quem levou expectativas de ver exactamente o que tinha pedido, ficou certamente desiludido. Vinte anos depois e como filme em televsião, perde muito do encanto. O objectivo era ser uma experiência social. Tribal. Para ver numa sala bem cheia onde se pode complementar o visionamento da obra com as gargalhadas, os gritos e os comentários jocosos. Assim o mau parece bom e o bom parece genial. Ainda pode ser visto. Envelheceu tão bom como os outros filmes de acção da época e é tão bom como qualquer outro desses. Mas vejam acompanhados. Encham a sala de amigos, façam pipocas, juntem álcool se ajudar. É para ver sem complexos e para passar um bom tempo. o filme está longe de ser memorável, mas a experiència do visionamento pode ser para recordar com carinho. Filmes Filmes 2006 AviãoCobrasespaço fechadoNuno Reis