L’Armée du Crime Nuno Reis, 14 de Dezembro de 20109 de Janeiro de 2026 A Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial ficou mundialmente célebre através da propaganda feita em séries como “Allo Allo”. Ninguém estava muito interessado em que conhecesse a verdade, que os heróis foram comunistas revoltados, que derramaram sangue desnecessário, que a França foi cúmplice ou responsável por mais mortes do que os invasores. Esta é a história de um dos seus heróis. O poeta arménio Missak Manouchian que tinha sobrevivido à guerra genocida no seu país. Em França é preso por ser um pensador com contactos e tem de assinar uma declaração em como não é comunista para ser libertado. Por insistência da mulher ele assina e sai, mas pretende esquecer tudo e viver em paz. Só que até o seu ideal anti-violência cai por terra ao ver o que acontece quando os homens bons não fazem nada. Primeiro vai apenas juntar jovens descontentes e descoordenados numa resistência organizada com base nos princípios do xadrez, mas depressa toma parte activa nos golpes. O seu bando pratica atentados bombistas, tiros à queima-roupa, tudo o que ajude a limpar a França dos alemães. É de saudar uma produção francesa que desmascara mitos e apresenta a verdade ao mundo. Robert Guédiguian podia pretender homenagear o seu compatriota Manouchian na pele de Simon Abkarian, outro arménio, mas reuniu um grande elenco francófono, encabeçado por uma irreconhecível Virginie Ledoyen e composto por um lote talentoso de jovens e veteranos. Este punhado de heróis nasceu por força das circunstâncias e nenhum deles o fez pela fama, mas apenas porque não suportava viver assim. Tem mais de duas horas para se fazer entender e os constantes saltos na narrativa adiam esse momento ao máximo. A resistência vai ser mostrada como um todo antes que o espectador consiga formar opinião. A violência pode por vezes ser excessiva, tem umas cenas poderosas de tortura, mas a mensagem passa. Como o exemplo de irresponsabilidade daquele que quer passar despercebido na multidão com um arma e ser capa de jornal pelos feitos na piscina, ou o que carrega uma bomba num livro icónico do comunismo. Foi uma questão de sorte que manteve o grupo vivo tanto tempo. “L’Armée du Crime” fica abaixo de muitos filmes do género, mas não é um título dispensável. É eficaz a mostrar que em tempo de guerra ambos os lados cometem atrocidades e, pelo menos para os espectadores franceses, as consequências desses actos permanecerão. Filmes Filmes 2009 Cannes 2009Nuno ReisSegunda Guerra Mundial