My Little Princess António Reis, 19 de Maio de 20111 de Dezembro de 2025 My Little Princess pornografia infantil ou arte? A prestigiada Semaine de La Critique do festival de Cannes faz 50 anos e uma das suas grandes apostas para comemorar a efeméride é a obra de estreia na realização de Eva Ionesco que tem a emblemática Isabelle Huppert no principal papel. Sendo um espaço da semana da crítica um lugar muito especial e tendo as suas obras sempre um cunho de originalidade e de polémica muito fortes, não admira que “My Little Princess” tenha sido seleccionado como imagem de marca desta comemoração. Ao recolocar o tema recorrente da difícil fronteira entre pornografia infantil ou arte, o filme, ainda que recorra à fotografia no centro do debate, aborda afinal a questão da legitimidade da arte não se conter nos limites dos valores e da moral. No filme o personagem de Huppert não cessa de lembrar, num tom sério que esconde uma ironia mordaz, que os museus e a literatura estão cheios de mulheres nuas e de sexualidade desbordante. Se acrescentarmos que as imagens desnudadas são de uma pré-adolescente, que o estilo visual é próximo dos catálogos Taschen, o ambiente releva uma morbidez vouyerista, temos todos os condimentos para um filme que obriga a reflectir sobre os limites do intelectual, da publicidade artística, dos direitos de autor e da reprodução da fotografia numa sociedade onde as imagens circulam instantaneamente. Provocador quanto baste, dividirá seguramente a crítica e não será facilmente digerível por um público não francófono. Cumpre, isso sim, uma das características dominantes do que deve ser a crítica: não se subjugar aos gostos do público, estar à frente das tendências e problematizar o cinema. Num registo excessivo Isabelle Huppert confirma o seu talento, ainda que a sua filmografia extensa o garantisse previamente. Cinema de autor para espectadores exigentes. Filmes Filmes 2011 António ReisCannes 2011fotografia