As Linhas de Wellington Nuno Reis, 15 de Setembro de 201212 de Agosto de 2025 A história de Portugal é imensa e rica. No entanto se alguma coisa se manteve foram as fronteiras terrestres – quase iguais há 800 anos e as mais antigas da Europa – e a aliança mais antiga do mundo, com Inglaterra. Isso trouxe-nos dissabores por duas vezes. A mais aborrecida foi o ultimato do mapa cor-de-rosa, que poderia ter mudado o rumo da História, mas a mais importante foi sem dúvida a do Bloqueio Continental. Napoleão conquistou o coração da França e os territórios da Europa. Como mandava a tradição secular dos dois países, apenas as ilhas do Reino Unido lhe escapavam e, numa tentativa de os enfraquecer, ordenou um embargo comercial de todo o continente. A Europa acatou essa jogada militar. Toda a Europa? Não. Um pequeno país recusou-se a trair o seu maior aliado e teve a coragem de o dizer a plenos pulmões. Napoleão e Espanha decidiram conquistar aquele pequeno terreno e por três vezes o tentaram, sendo sempre corridos. O nosso rei pode ter tido pouca confiança e zarpou para além-mar, mas o povo desgovernado fez não o que lhe mandavam – as ordens eram vagas – mas o que sabia ser correcto. Se não conseguiam defender o país, morreriam por ele. Cada invasão teve a sua história. Na primeira as ordens que ficaram no ar eram para não resistir. Foi o que fizemos até chegarem os ingleses para defender os seus interesses e os franceses de Soult fugiram de Lisboa com o saque que conseguiram. Na segunda invasão o alvo foi o Norte, mas nem tiveram tempo de se acomodar, pois logo foram corridos. A terceira era a decisiva. O exército francês com a sua estratégia de terra queimada suplantava o português em homens, em energia e em alimentos, mas nunca em astúcia. Wellington utilizou a geografia a seu favor, causando numerosas baixas no inimigo em solo desnivelado. Os franceses acreditavam que com os reforços conseguiriam romper a resistência. O que não sabiam é que Wellington tinha outra carta na manga. Tinha construído em total segredo um sistema de fortificações para proteger a península de Lisboa. O inimigo nem suspeitava, mas quando chegou o momento de marchar para Lisboa, tinham perante eles as Linhas de Torres Vedras – talvez o maior segredo militar da Europa – a nossa própria Grande Muralha, construída do nada e intransponível. Não só as torres tinham sido erguidas pelos nossos homens que deram o seu melhor, como eram defendidas pelos nossos soldados que iriam dar o seu melhor. Nenhum português queria ser responsável pela queda do Império. Este filme narra o que se passou em Portugal entre a batalha do Buçaco e a defesa de Torres Vedras. Soldados, meretrizes, freiras e civis, em batalha, em fuga ou escondidos, todos tiveram o seu papel numa guerra interminável. Ao longo de duas horas e meia – não parece tão longo como soa – fazem os possíveis para sobreviver por entre a morte. Uns A visão de Ruiz transposta a filme pela sua viúva não tem magia nem é tão brutal como se esperaria de um filme de guerra, mas não é mau. O filme tenta abarcar um pouco de tudo e não consegue ser completo como se desejaria. Não substitui os livros de História, apenas motiva para os irem procurar. A prioridade foi ir além do conflito que pode ser lido nos livros e mostrar as pessoas. Pessoas, especialmente mulheres, e a batalha que travaram como guerreiras deste Portugal, como líderes de famílias que a guerra reduziu, como vítimas da luxúria dos estrangeiros. Os planos de câmara são fora do comum (nem bons, nem maus), tem algumas cenas inúteis como o desfile de vedetas francesas numa refeição sem sentido, e Wellington não é tão imponente como se gostaria de imaginar, no entanto em todo o filme a única falha a apontar é a direcção de figurantes. Sejam os soldados em festa que não se sabem divertir e têm uma ridícula forma de dançar, ou os trabalhadores que se mexem lentamente em vez de parecerem cansados, o filme falha muito nesse ponto. Do lado positivo há uma excelente circulação entre personagens, os desempenhos dos actores são aceitáveis, e os vários idiomas falados (português, castelhano, francês, inglês e um pouco de polaco) alternam-se como seria de esperar numa situação real. Como filmes temático para as escolas tem demasiada nudez e sexo – já nem falo da violência que o próprio Wellington a determinada altura diz ser excessiva – mas mesmo assim pode bem chegar aos 100000 espectadores só em Portugal e bem melhor no estrangeiro devido ao seu elenco internacional. Enquanto se conseguir filtrar os aspectos menos bons a História de Portugal é um motivo de orgulho. Filmes Filmes 2012 Nuno Reis