Alléluia Nuno Reis, 10 de Outubro de 20145 de Dezembro de 2025 O Méliès d’Or, prémio do cinema fantástico ao melhor filme europeu do género, é talvez das iniciativas mais interessantes e que menor reconhecimento público e da imprensa tem tido. Homenageando o mago Méliès e os seus sonhos feitos cinema, a repercussão mediática é praticamente nula, o que não deixa de ser intrigante, mas que merecia uma reflexão mais cuidada e uma acção mais eficaz por parte da Federação Europeia de Festivais do Cinema Fantástico. Ao longo de dezoito edições, a verdade é que os filmes premiados têm conciliado um carácter grandemente inovador no domínio do fantástico, e sobretudo tem colocado o foco em cinematografias menos populares a nível de exibição comercial. Os países nórdicos, a França, a Espanha e a Bélgica têm conseguido quase o pleno, seja a solo ou em co-produção. Este ano não foi excepção e o décimo oitavo Méliés d’Or recaiu em “Alléluia”, filme já apresentado no MOTELx e que era o nomeado por Lund. Prova que o amor é um tema do fantástico e que quando é amour fou, se pode aproximar perigosamente do terror. Vagamente inspirado numa história verídica, este improvável encontro entre uma mulher que fugiu de um amor violento para levar uma vida sombria – com duplo sentido pois está escondida do passado e a trabalhar numa morgue – e um gigolo sedutor e bem-falante, vai despoletar uma catadupa de sentimentos contraditórios, triângulos amorosos e descargas emocionais. Fabrice du Welz, a quem Jaume Balagueró reconheceu em Junho como um dos maiores nomes do fantástico europeu, confirmou esse estatuto, com uma obra muito negra, que foge à ideia convencional do fantástico como sendo território de criaturas do além ou sobre-humanas, provando que podemos estar a conviver no dia-a-dia com elas. Lentamente vai construindo o retrato de duas pessoas com distúrbios causados por problemas anteriores. A sua fixação mútua e indiferença pela vida dos outros, vai iniciar uma escalada de violência. O elenco é muito reduzido, mas uma incrível interpretação da barcelonesa emigrada Lola Dueñas (“Hable Com Ella”, “Mar Adentro”, “Volver”, “Yo, También”) a dividir protagonismo com o parisiense Laurent Lucas (que já tinha entrado em “Calvaire” do mesmo realizador), bastou para surpreender em todos os festivais por onde passou e arrecadar bastantes troféus. Na verdade, não sendo um filme convencional do terror, o público sentiu-se um pouco defraudado. Não lhe nego qualidade, mas a espiral emocional que outros títulos vão dando, estava ausente nesta obra, que apostou em construir algo requintado e que chocaria pessoas ditas normais, algo que os fãs do terror se recusam a ser. Quando estão em “modo festival” não gostam de ser manipulados e de criminosos com justificação. Querem emoções fortes e monstros imparáveis. Este prémio está em linha com o estranho vencedor do ano passado, “Em Nome do Filho”. Também uma co-produção franco-belga, também acessível ao grande público, também sem elementos sobrenaturais, também com muito sangue. Não retirando mérito a qualquer um destes vencedores, o prémio não devia estar tão desvirtuado. Devia premiar o que de melhor se faz no fantástico europeu para ganhar novos públicos. Tendo um percurso comercial risonho pela frente – se lhe fizerem a devida promoção – recomendo o seu visionamento. Mas num festival só funciona como cerimónia de abertura, quando o público ainda não foi embrutecido pela violência e gore e consegue saborear algo diferente do habitual. Filmes Filmes 2014 morteMOTELx 2014Nuno ReisSitges 2014