99 Homes (2015) Nuno Reis, 28 de Setembro de 202524 de Outubro de 2025 O caminho para o sonho americano é um pesadelo O mercado financeiro tem altos e baixos. Isso costuma ter algum impacto na sociedade, mas poucas vezes como a grande crise do subprime em 2008. Entre inúmeros exemplos de ficções e documentários em torno do tema e do seu efeito, o foco costuma estar em “The Big Short” pelo super-elenco reunido. Ramin Bahrani foi um dos que quis partilhar a sua própria visão e também conseguiu uma equipa vistosa para o ajudar nessa missão. Andrew Garfield, Laura Dern e Michael Shannon. E apesar de os três argumentistas terem nomes estrangeiros (e pelo menos Amir Naderi ter uma vasta carreira no Irão antes de ir para Hollywood) a história é completamente contada de uma perspectiva de americanos descendentes de europeus, integrados há gerações e sem nada de extraordinário contra eles. A história começa logo pelo tema principal: a facilidade com que se despeja pessoas. Dennis Nash está no tribunal a tentar impedir o despejo, mas a informação não circula. Ele mantém esperança, até a polícia lhe aparecer à porta. Colocado na rua com a mãe e o filho, fica para além do desespero. Na tentativa de reconstruir a sua vida e com o sonho de recuperar a casa da família, vai procurar trabalho. E o destino vai fazer com que acabe do lado oposto do negócio de expulsar pessoas de casa. Ainda que esta Laura Dern em pré-regresso à fama tenha sido desperdiçada como avó alheia, o elenco no geral é poderoso. Tenho de começar por referir Michael Shannon. Nos filmes em que tem liberdade para ser mau, é arrepiadoramente credível. Calhou-me apanhar este filme em zapping. Uma cena quase no início em que ele me pareceu mais comedido, e decidi ver do princípio. Shannon está bem, num registo bem mais calculista que o costume. O seu golpe de génio assenta em leis que permitem isso. Não parece mau, parece eficaz. Sendo insensível, as vítimas que deixa pelo caminho são apenas danos colaterais de uma lei desadequada para os tempos inesperados que o filme retrata. Para o final vai ficando criminoso de forma clara, mas em crescendo. Pequenas coisas que se tornam enormes. Reflexo de uma indústria descontrolada e desregulamentada. Vemos também Andrew Garfield a brilhar em mais um papel dramático. Apesar da jovem idade, é convincente como pai dedicado. Vemos o desespero no rosto enquanto procura um trabalha, e como o esconde da família ao chegar junto deles. Como se esforça para arranjar um tecto, e depois para recuperar a sua casa, entrando numa espiral de desgraça cego pelo dinheiro fácil. E vemos como o pouco poder facilmente corrompe. Como se passa de querer uma casa específica, onde se tem história, para querer 99. É um filme sobre pessoas normais apanhadas numa situação má. Sobre como as promessas do sonho americano, levam mais depressa ao abismo que ao topo. E como a economia americana foi feita de forma a que quem cai, nunca volte a subir sem ter de esmagar o seu semelhante no processo. É um grito de alerta para salvar a humanidade que resta nas pessoas com algum poder. Filmes Filmes 2015 crise 2008habitaçãoimobiliárioNuno Reissonho americano