Good Kill (2015) Nuno Reis, 26 de Setembro de 202526 de Outubro de 2025 Fico muito preocupado sempre que sai um filme por Andrew Niccol. Ele não olha só para a sociedade contemporânea de forma crítica. Ele antecipa os temas quentes do futuro antes de termos sequer noção que vão surgir. Viagens ao espaço por uma elite (“Gattaca“). Estupidificação das massas e reality shows (“The Truman Show“). Avatares que roubam empregos a humanos (“S1m0ne“). O tempo como moeda principal (“In Time“). Toda a nossa vida ser apenas informação na blockchain (“Anon“). Em “Good Kill”, essa característica é evidente desde os primeiros minutos: os drones como arma principal de guerra. Uma década antes de termos a Ucrânia como palco da guerra do futuro, Niccol já levantava as questões éticas que ainda ignoramos. Aliás, Niccol não escreve apenas entretenimento: escreve sobre a realidade, sobre dilemas morais e usa o cinema como ferramenta de questionamento ético. O filme centra-se no Major Thomas Egan (Ethan Hawke), piloto na Força Aérea dos Estados Unidos. Egan é um homem dividido entre o cumprimento do dever e a consciência do efeito das suas ações, que resultam em mortes a milhares de quilómetros de distância. Ele tem a objectividade de um soldado. Sabe que matar é errado, mas é um meio eficaz para atingir a paz. No entanto ele preferia estar do outro lado do mundo, no meio de um deserto tórrido e sem condições, a fazer trabalho remoto. Aqui pode matar no conforto do ar condicionado, almoçar pratos não enlatados, e ir para casa ao fim do dia, ver a família e dormir na própria cama. Não parece certo. Antes a guerra era distante e compartimentalizada. A morte aerotransportada ficava lá longe e várias horas separavam a morte da vida. Dava tempo para recordar e para esquecer. Agora, é apenas mais uma tarefa corriqueira e o soldado meia hora depois de largar uma bomba pode estar a brincar com o filho. A realização de Niccol é quase documental, reforçando o realismo da história. A câmara, ao contrário do que vemos em filmes de guerra, muitas vezes permanece imóvel, permitindo que a atenção se concentre nas expressões faciais e nos diálogos. Deixa a narativa sobrepôr-se à adrenalina. E as cores frias na base contrasta, com os tons quentes da casa, para distanciar esses mundos agora unidos. Outro ponto relevante é o ritmo do filme. Cada cena é construída para permitir que o espectador assimile a decisão tomada pelo protagonista, sobre a lógica que orienta cada missão e sobre a responsabilidade pessoal por cada acto de guerra. Este compasso pode afastar alguns espectadores que procurassem thrillers convencionais, mas para outros é a grande força do filme, pois obriga à análise crítica e consciencialização social. Se as armas químicas e biológicas foram proibidas por causarem danos desumanos, porque normalizamos usar máquinas (por vezes até sem pilotos humanos) para matar? Alguns enfeites usados para tentar manter todos os espectadores envolvidos acabaram por ser a maior fraqueza do filme. Niccol não evita mostrar o impacto humano das suas escolhas. Vemos imagens dos ataques, ouvimos as comunicações com civis e soldados no terreno e vários relatos de famílias afetadas. Estas inserções são breves, mas contundentes: um lembrete constante de que, por mais que a guerra seja feita pela tecnologia, as vítimas são sempre humanas. E se isso atormenta Egan que tem como vocação tirar vidas, cada um de nós tem de ficar ainda mais preocupado. É impossível não considerar o relevante impacto cultural de “Good Kill“. Apesar de não ter sido um blockbuster o filme antecipou o debate sobre drones e guerra à distância. Em Portugal só estreou cinco anos depois, em televisão, e passei dois anos a pensar no que tinha visto. É mais do que um filme de guerra. É uma obra que coloca o espectador no centro de um debate contemporâneo. Força-o a olhar para as consequências das tecnologias que transformam a guerra e a responsabilidade humana de quem as opera. Pode ser esquecido, mas a mensagem perdurará. Filmes Filmes 2015 dronesNuno ReisOperação militar