Jupiter Ascending Nuno Reis, 15 de Maio de 201529 de Dezembro de 2025 Os irmãos Wachowski tiveram de trabalhar muito para chegarem ao lugar onde estão hoje. Nos anos 90 ninguém os conhecia. Venderam o argumento de “Assassins” (que Richard Donner filmou) e tiveram logo uma ideia para algo diferente. Nenhum estúdio aceitaria confiar a uns novatos dinheiro para uma ideia mirabolante e por isso fizeram o filme de culto “Bound” e conseguiram ter os olhos de Hollywood neles. Daí passarma facilmente para o seu projecto especial, uma coisa chamada “Matrix” que desafiou a concepção do Cinema e os tornou figuras incontornáveis da sétima arte. A partir daí, fizeram o que quiseram. Começaram por tornar o eficaz “Matrix” numa trilogia com uma série de animação associada e a partir daí as opiniões começaram a dividir-se. Uns ainda os achavam geniais, os outros achavam que tinham tido sorte num ou dois filmes e agora estavam a enganar toda a gente. Os anos foram passando e entre os filmes de culto – produziram a adaptação de “V for Vendetta” – e os fracassos – “Speed Racer” – não havia um meio termo, apenas amor ou ódio. Com “Cloud Atlas” ganhou força uma terceira corrente, onde se dizia que eram artistas incompreendidos. “Jupiter Ascending” era a obra para tirar teimas. Ousadamente apresentada como primeira parte de uma trilogia, os resultados de bilheteira parecem dizer o contrário. O projecto Jupiter parece ter morrido à nascença. Esta é uma história de dimensão astronómica e bem ao gosto dos irmãos. Tão dispersa no espaço como “Cloud Atlas” foi no tempo, tão violenta como o episódio final de “Matrix”, tão movimentada como “Speed Racer”. Apostou nos vilões singulares e carismáticos num esforço para convencer e concentrou tudo na imagem – na acção e nos efeitos especiais – em vez de elaborados argumentos. A narrativa acompanha Jupiter, uma jovem de origem russa que se queixa muito da vida que tem. Até que uma visita vinda do espaço a faz ver quão especial é. O resto da humanidade é que não tem identidade, não passam de gado. Jupiter não é o género de viajar. Nem sequer sabe o que significa tirar férias, mas é procurada por pessoas vinda de muito longe. Uns para a prenderem, outros para a matarem. Por sorte tem do seu lado um mercenário muito talentoso que fará tudo para a manter viva. Jupiter é demasiado humana para seu próprio bem e, com a confiança de ter alguém do seu lado, vai tentar alterar as coisas. Só que o universo conhecido não passa de uma grande farsa. Nenhum indivíduo consegue alterar o sistema implementado ou insurgir-se contra ele. A única coisa que Jupiter faz, é coleccionar mais inimigos. A ficção-científica é dos géneros mais sujeitos a crítica. Quando a ciência apresentada é demasiado próxima, costuma ser analisada de forma muito minuciosa em busca de falhas. A única forma de escapar a isso, é sendo completamente extravagante e indo para muito longe no tempo ou no espaço. Construir um mundo diferente de tudo o que seja conhecido. Algo tão épico e grandioso, que o único termo que se aplica é space opera. “Jupiter Ascending” esteve quase lá. Falhou por se manter muito apegado à Terra. Por nunca se decidir nas quantidades de humor a aplicar à excessiva acção. E especialmente, por desencantar invenções convenientes muito tarde na história e depois as usar à exaustão, como os fatos de astronauta prontos a usar, os atravessadores de paredes… A ambição dos cineastas até aqui era clara: queriam criar um novo universo ao nível do que nos deram em Matrix. e a verdade é que tinha potencial. A sociedade intemporal como inimigo sem rosto podia durar por muitos filmes. As tecnologias simples para voar, adormecer, vestir e tudo isso encaixaram bem no quotidiano. A ligação a outras espécies terráqueas era uma perspectiva invulgar, mas interessante. E depois esbanjam tudo isso cometendo asneiras como os vilões serem uns intriguistas descaradamente maus a mentir, ou a refinaria/centro de processamento se parecer com uma siderurgia sem que isso faça sentido. E os actores serem completamente insossos e sem química. Não fossem esses erros infantis, seria algo para ver de forma entretida e talvez o espectador se voltar a sentir como uma criança. Mas com tanta coisa sem sentido, uma criança que tenha idade suficiente para ir ver o filme, tem cabeça suficiente para saber quão mau é. Talvez melhore no próximo filme (ou que formato escolherem para acabar de contar esta história). Medindo “Jupiter” apenas por “Ascending” sabe a uma enorme desilusão. Filmes Filmes 2015 genéticaNuno Reis