MacBeth (2015) Nuno Reis, 14 de Outubro de 201511 de Agosto de 2025 Porquê MacBeth? Em três dias consecutivos, as secções oficiais de Sitges apresentaram três adaptações de clássicos da literatura, o que permite reflectir não apenas sobre as relações da literatura com o cinema, mas sobretudo do interesse em produzir versões de três textos alvo de inúmeras leituras cinematográficas. Afinal o que é adaptar ao cinema um texto literário? Será reinventar por completo uma obra como Dormael faz em “Le Tout Nouveau Testament“? Será recriar e modernizar uma obra bicentária como o “Frankenstein“ de Bernard Rose? Ou será transpor com a maior fidelidade possível neste caso um texto teatral como “MacBeth” dirigido por Justin Kurzel? Confesso que sou mais sensível aos dois primeiros exemplos. “MacBeth“, de um realizador que está agora a fazer a adaptação do videojogo “Assassin’s Creed” curiosamente com os mesmos actores, não assume o risco de inovar Shakespeare como por exemplo o fez Baz Luhrmann, e por isso, acaba-se sempre por comparar o seu trabalho com todas as inúmeras versões do Macbeth em cinema. O que nos leva à reflexão sobre se vale a pena fazer remakes de filmes que contribuem muito pouco para novas visões. Classificado como Drama/Guerra, esta é uma redutora forma de publicitar esta obra-prima de Shakespeare. Nela o drama não aprofunda a dimensão trágica dos seus personagens e a guerra é apenas um adereço pouco significativo para a história. Poderíamos pensar que a base teatral de “MacBeth” implica sobretudo uma valoração das interpretações. Mesmo aqui Michael Fassbender tem um registo pouco expressivo e Marion Cotillard passeia discretamente a sua beleza ao longo do filme. Se de entre as mais de cem adaptações de MacBeth, a compararmos com os filmes de Orson Welles ou de Kenneth Branagh, a questão de qual o interesse em readaptar “MacBeth” torna-se ainda mais pertinente. Justin Kurzel também não resiste à tentação de copiar os grandes mestres como Kurosawa, Boorman ou Coppola com seus horizontes vermelhos. E copiar não se pode dizer que seja uma actividade muito criativa. Mesmo em termos de realização cinematográfica, cada vez mais assistimos a um predomínio dos grandes planos em detrimento de planos de conjunto. Até neste caso a televisão quer estandardizar o cinema. Shakespeare já não recebe direitos de autor. Mas duvido que ficasse satisfeito com esta apropriação do seu universo trágico. Filmes Filmes 2015 Nuno ReisSitges 2015