Tracers Nuno Reis, 26 de Abril de 201515 de Dezembro de 2025 Os thrillers cada vez têm menos fronteiras. Não falo da dimensão internacional, mas da facilidade com que vão buscar inspiração a outros géneros e se cruzam de forma aparentemente inócua ganhando públicos inesperados. “Tracers” é um filme sobre parkour. Isso é um nicho habitual dos filmes de acção, e ultimamente tem tido uma boa oferta, não é por aí que vende mais bilhetes. Tem bicicletas, o que é outro nicho dos filmes de acção também normalmente ignorado. Tem Taylor Lautner o que lhe pode conseguir um público de filmes mais românticos. Tem uma intriga internacional para se vender mais facilmente noutros mercados. E tem muitas armas para que não pensem que é só sobre actividades físicas radicais. Portanto, temos um híbrido de thriller com filme de acção, com romance que vai buscar um bocado a cada canto possível. E não se sai mal. O problema de “Tracers” é que usa os saltos impossíveis para colmatar falhas a nível narrativo, apostando no “encher o olho” em vez de explorar a fundo algum dos vários caminhos que abre. Das três alturas em que a acção dispara, em duas já sabemos o que vai acontecer e a terceira também se imagina. Esse vazio é o pior num argumento que é completamente banal desde o início e só não parece mal porque o filme vive da adrenalina e isso costuma desligar o cérebro a quem assiste. Ninguém espera, entrando numa sala de cinema para ver parkour, ver uma história com pés e cabeça. Só exigem saltos inacreditáveis e isso é-lhes dado de mão beijada. Cam fazia entregas de bicicleta. Até que uma jovem aos saltos causa um acidente e lhe arruina o meio de transporte ganha-pão. Ela apeñas faz o correcto e oferece-lhe uma nova bicicleta, mas ele quer agradecer esse gesto e vai andar à procura dela. Ao descobrir o parkour, e motivado pelo físico de Nikki, vai experimentar essa actividade física e o seu mérito coloca-o num grupo de elite com vários trabalhos para executar. Entre os actores Taylor Lautner será o chamariz principal. A sua transição para os papéis de acção tem sido gradual e tem tido discernimento para fazer algo mais do que isso, apostando igualmente noutros géneros e em personagens não tão aprazíveis. Aqui é um bom rapaz com alguns azares na vida que vai ter de se evidenciar tanto física como mentalmente para sobreviver num meio onde os erros custam a vida. Contracena com Marie Avgeropoulos, um rosto ainda pouco conhecido, mas que tem entrado em diversos filmes e séries. A actriz fica sempre em segundo plano, servindo como elo de Cam ao submundo do parkour e todas as mudanças que se processam ao longo da história. Tendo visto há uns anos o filme de estreia do realizador Daniel Benmayor, já sabia o que podia esperar de “Tracers“. Com um pouco de “Premium Rush” e da adrenalina dos estafetas ciclistas, e muito parkour ao estilo do pioneiro “Banlieue 13“, depressa “Tracers” entra num ritmo elevado onde acrobacias e sobrevivência se misturam. O trabalho de câmara está muito adequado aos movimentos rápidos das personagens, a fotografia e a banda sonora também. É um digno produto para o grande ecrã. Faltou algo mais sólido no argumento para que também no mercado doméstico conseguisse longevidade. Da forma que está, será esquecido numa questão de meses. Filmes Filmes 2015 BicicletasNuno ReisParkour