Allegiant Nuno Reis, 15 de Agosto de 201611 de Dezembro de 2025 A saga Divergente tinha uma tarefa complicada no plano da Summit. Tinha de ser o fenómeno fora de época alta que ia substituir Twilight. Mas a literatura Young Adult não é toda igual e ser centrado numa rapariga que tem de descobrir a sua coragem interior para mudar o mundo não é o suficiente para serem o mesmo. Enquanto a história de vampiros e lobisomens era para um público feminino que gosta de romances e se acha apreciador do terror, esta é para um público de ambos os géneros que aprecia ficção-científica e mundos distópicos. A diferença tem-se sentido na bilheteira e a divisão do último livro em dois filmes, ainda que não sendo descabida, foi mal planeada. Principalmente porque não conseguiram manter Robert Schwentke para a parte final. Ter três realizadores em quatro filmes não é bom sinal para uma saga que vai durar quatro anos. Ou isso significa que foi dispensado devido aos resultados de bilheteira, ou que algo vai mal na produção. Para o espectador o único problema que transparece, é que não parece ter duas horas certas, parece ser curto e ter sido acelerado, e um não-leitor (à medida que a saga avança é cada vez mais provável haver quem não tenha lido todos os livros e ainda assim queira ver os filmes) terá dificuldades em entrar no tema devido à pequena duração de cenas-chave para a narrativa. Sem entrar em spoilers, depois da grande surpresa da parte dois, o grupo que nós conhecemos vai passar a muralha para ver o que se passa no exterior. Ao entrarem em contacto com uma outra civilização humana, terão um choque de ideologias e enquanto uns membros do grupo se tentam adaptar, outros, mais desconfiados, tentam descobrir os podres escondidos. Quando a situação em Chicago descamba numa guerra civil, há quem o tente resolver pela via diplomática e outros querem pegar em armas e cortar o mal pela raíz. Uma divisão de opiniões clássica da FC que tem sido feita em diversos filmes. Claro que pelo meio há várias intrigas, jogos de poder e emoções ao rubro, tanto em Chicago como na sociedade dita avançada. Os actores já estão acostumados às personagens e fazem-no naturalmente, com a honrosa excepção do estreante Jeff Daniels como David que faz tudo para parecer artificial e não gostarmos dele. Quanto a temáticas, do ponto de vista tecnológico há duas grandes invenções: os drones pessoais e o gás que limpa a memória. A sua introdução é feita de forma competente e são usados de forma adequada durante o filme. Do ponto de vista social é o velho dilema sobre quem decide que vidas importam e como é possível que algumas pessoas estejam dispostas a sacrificar outras só por dinheiro ou poder. Visualmente é uma obra competente que tão depressa faz planos de noventa graus como coloca as personagens a correr no meio do deserto ou numa simulação em tempo real e a trezentos e sessenta graus da cidade. Não tem o impacto da primeira parte (já a segunda não teve), mas cumpre plenamente o que era exigido e, considerando as diferenças tecnológicas entre os povos, há um bom desequilíbrio visual. Como filme no seu todo, “Allegiant” tinha a ingrata tarefa de ser apenas um elo de ligação entre a realidade que conhecíamos de trás e a épica quarta parte. Ou seja, fazer a ponte entre dois mundos. Não é que tenha comprometido a saga, mas supondo que o quarto título atinge todo o seu potencial, este terceiro será o mais fraco da colecção e o bloco mais monótono das maratonas televisivas. É o que acontece quando se divide os livros em demasiados filmes em vez de fazer filmes mais longos. É sempre uma decisão complicada e ambas as opções têm argumentos, mas aqui correu mal. Esperemos pelo quarto a ver se a Divergent Saga acaba em grande ou se este foi o primeiro passo em direcção ao abismo. Nota: Este texto foi escrito antes da notícia que a saga iria ser concluída em formato televisivo. Agora tornou-se óbvio que o quarto filme não vai existir e portanto esta foi a despedida da televisão. Pode não ter sido a melhor decisão, mas as estreias em épocas mortas sempre disseram que só se queriam impor em terra de ninguém. Quando não confiam o suficiente num suposto blockbuster para enfrentar os títulos grandes, está tudo dito. Em televisão pode continuar a definhar, ou pode ganhar nova vida. Filmes Filmes 2016 DivergentgenéticaMulher forteNuno Reissequela