Tenemos la Carne Nuno Reis, 9 de Setembro de 201613 de Dezembro de 2025 Emiliano Rocha Minter está apenas a começar a sua carreira. A ousadia nesta sua primeira obra foi tal que o resultado será um de apenas dois possíveis: ou se torna uma estrela do cinema polémico e perturbador ao nível de Gaspar Noé, ou é condenado ao ostracismo. Devido aos enormes apoiantes que tem (falamos de nomes como Alejandro Gonzalez Iñarritu, Alfonso Cuaron e Carlos Reygadas) o mais provável será o primeiro, mas a polémica estará seguramente instalada em cada obra. Para muitos este nome pode não significar muito, mas o filme está a ser distribuído pela Reel Suspects, os reis do cinema alternativo a nível europeu. Apesar de várias sinopses online serem vagas, erróneas, ou se focarem em momentos demasiado avançados na narrativa, “Tenemos la Carne” é sobre dois irmãos à deriva num mundo pós-apocalíptico que se deparam com um homem grotesco que parece senil. Ele recebe-os com alguma brusquidão e aos poucos vai corrompendo a humanidade que tinham, culminando na construção conjunta de uma gruta onde são esquecidas as últimas leis do mundo exterior que ainda se aplicavam. Esta metamorfose do ser humano num estado primitivo e animalesco após a queda da civilização não costuma ser tão crua e de vez em quando haver filmes que explorem essa vertente recorda-nos do pior. O filme está muito assente nas interpretações destes três actores. Noé Hernández apesar dos dez anos de carreira surgiu recentemente aos olhos do mundo com “Miss Bala” (onde o realizador também trabalhou) e nestes dois últimos anos venceu o Ariel de Melhor Actor Secundário, mostrando que é mais do que um nome a ter em conta no panorama do fantástico, mas uma certeza do cinema mexicano. O seu papel era complexo e está brilhante. Depois temos os dois jovens e se Diego Gamaliel não compromete, então o que dizer de María Evoli? A actriz está soberba e quando o filme passa para os seus ombros também nos leva para a loucura, ainda que com menos complexidade do que Hernández. Dum ponto de vista técnico não há grandes truques, além da imensa qualidade prostética com que fazem aquelas feridas parecerem reais. Não pode ser dito mais sem estragar a surpresa. Visualmente há aquele enorme detalhe de ser um filme rodado em interiores, seja o edifício abandonado ou a gruta completamente fechada, e em momento algum se notarem problemas de iluminação. O director de fotografia Yollótl Alvarado também está a começar a sua carreira com os filmes de Rocha Minter e parecem alinhados rumo ao sucesso. Na narrativa há alguns problemas. O filme tenta abarcar um enorme leque de emoções e sentidos, indiferente ao que o espectador possa pensar. Ao início a estranheza causa curiosidade, mas com o passar no tempo e à medida que as cenas vão ficando mais chocantes, começa a instalar-se algum tédio. “Tenemos la Carne” tem muito de fantástico e revoltante, mas num contexto de festival de terror esperava-se mais emoção. Claro que para uma grande maioria dos espectadores que o filme irá encontrar pelo seu percurso de festivais ou comercial será revoltante, nojento e emotivo que chegue. Levará a saídas da sala em grandes números e vai trazer polémica a um nível como não se via em talvez uma década. O que fica deste filme é especialmente a curiosidade no que Emiliano Rocha Minter poderá fazer a seguir. Um filme pós-apocalíptico de interiores tem poucos actores, pouco orçamento e como filme mexicano tem pouco impacto. Irá o realizador continuar a explorar o underground, vai tentar agitar as águas a outro nível, ou será seduzido pelo cinema puramente comercial. Que o México é pátria de grandes realizadores nós recordamos todos os anos. Será também ele capaz de deixar a sua marca indelével na história do cinema depois deste intrigante prenúncio? Filmes Filmes 2016 MOTELx 2016Mundo pós-apocalipticoNuno Reis