Warcraft Nuno Reis, 15 de Agosto de 201611 de Dezembro de 2025 A passagem de videojogos para o formato cinematográfico costuma ser um fenómeno tortuoso, tanto para os fãs do jogo como para quem o desconhecia. Parte da culpa está em Uwe Boll que fez o que quis de vários títulos ao longo dos anos até que o impedissem, mas a verdade é que o videojogo como existiu, até há cerca de uma década, é um género muito complicado de adaptar. Sejam os jogos de plataformas que obrigam a pensar numa história do zero, os RPG com a narrativa pensada para uma personagem que segue um trilho específico, ou os jogos de estratégia com tantas possibilidades que cada um tem a sua, nenhum jogo convertido em filme consegue ser exactamente aquilo que o jogador espera ver sem ser demasiado monótono ou demasiado ousado. E para o não-jogador, será uma história fora de época que parece desajustada no formato cinematográfico. Citando um daqueles raros grandes filmes sobre jogos de computador “a única jogada vencedora é não jogar”. Mas isso é algo que Hollywood não faria. “Warcraft” é um daqueles jogos que atravessou gerações. Foi evoluindo, mas milhões de jovens (e menos jovens) passaram pelo processo de enfrentar humanos ou orcs com invenções mirabolantes, criaturas impossíveis e magia de vários tipos. Potencial para um filme ou uma série deles não falta. Duncan Jones foi o eleito para a tarefa. O seu trunfo continua a residir em ter feito – e com um orçamento muito reduzido – uma das obras máximas da FC deste século. No que se seguiu sempre tentou inovar e fazer diferente, mas não conseguindo convencer. “Warcraft” seria o maior orçamento, o maior desafio tecnológico, a maior base de fãs, o maior desafio e um tudo ou nada para a carreira de Jones. E não correu bem. Sendo um jogo de fantasia, o filme teria obrigatoriamente de seguir o mesmo rumo e tirar partido das imensas criaturas disponíveis. Nesse ponto não há nada a apontar. Temos humanos e orcs q.b. e ainda vemos gnomos e algumas outras criaturas. Há enormes exércitos em combates de grande dimensão e há magia de vários tipos e cores. Então o que falhou? Se fosse um filme de fantasia dos anos 80, teria corrido bem. Na altura bastava ter a coragem de fazer e mostrar algo diferente. Mas tal como esse filmes não aguentaram o teste do tempo quando foram vistos com outro olhar, também “Warcraft” numa perspectiva do século XXI desilude e isso essencialmente por uma contradição. Pela sua estrutura é um filme introdutório àquele mundo e às personagens. Uma antecâmara para algo épico que virá depois. Só que não funciona. As personagens não ganham a dimensão humana necessária e são tratadas como estereótipos já conhecidos. Essa atitude de as mostrar como peças menores de um jogo maior faz com que não se crie laços, não se veja com emoção, não se sinta o que era suposto. E por outro lado, quando vemos quem ficará para o resto da saga, já essas personagens estão há muito no rol de coisas a esquecer e o desejo que o filme acabe é a sensação dominante. Ou o filme assumia que conhecíamos a história e se focava nas personagens, ou explorava a história como algo novo e deslumbrante e deixava as personagens como minudências a serem vistas depois (a atitude do jogo). Da forma que trata os seres, parece ter optado pelo segundo caminho – a escolha certa – mas os mundos de fantasia já não são algo de novo e não causam o impacto que se esperaria. Uma geração que passou quinze anos a ver filmes de Senhor dos Anéis e Harry Potter (para não referir outros menos universais) não se surpreende com tão pouco. “Warcraft” ou era fabuloso no que nos mostrava, ou teria de seguir o caminho mais difícil e construir boas personagens. Falhou em ambos e agora tem o futuro comprometido. Filmes Filmes 2016 GuerreirosNuno ReisVideojogos