A Day/Ha-Roo Nuno Reis, 11 de Outubro de 201713 de Novembro de 2025 Quando Bill Murray acordou naquele fatídico Dia da Marmota pela segunda vez, não imaginava onde se estava a meter. Desde então ele terá acordado mais uns milhares de vezes nesse mesmo dia, e a indústria do cinema começou a achar por bem fazer igual número de cópias. A maioria dessas tentativas foram más e ignoradas, mas felizmente este ano até há coisas boas dentro da temática. Da Coreia do Sul chega-nos “A Day”. Aqui o protagonista é um médico. Quando ele acorda no voo de regresso depois de uns meses nas Nações Unidas, a sua prioridade é reencontrar a filha e festejar o aniversário da pequena. Uma viagem normal do aeroporto para o restaurante é alterada quando se cruza com um acidente rodoviário. Numa tentativa de salvar a segunda vida do dia, o bom doutor corre para o carro e depois de uma rápida intervenção, apercebe-se que não conseguirá salvar todos. Acorda no avião desse terrível pesadelo e o dia volta a desenrolar-se exactamente da mesma forma. As tentativas sucedem-se até que de repente um paramédico muito transtornado vai ter com ele a perguntar porque não faz sempre o mesmo. Afinal o médico não está sozinho nesse ciclo e os dois salvadores de vidas podem agora trabalhar em conjunto para impedirem aquele acidente de acontecer. É muito perigoso pegar numa ideia já tão bem explorada e ainda por cima conhecida de todos e adorada por muitos. O twist que este filme dá é suficiente para aumentar em muito a complexidade. A possibilidade de partilhar informação com alguém, sem ter de explicar tudo antes a uma pessoa incrédula, facilita a missão. Especialmente com telemóveis que evitam terem de se reunir fisicamente e sendo eles dois profissionais de saúde, treinados para salvar vidas. Essa sensação que “coisas más não deviam acontecer a pessoas boas” e merecem uma nova oportunidade para salvarem gente que lhes é querida valoriza imenso o filme, e o twist seguinte, ainda melhor. Pelo meio há adrenalina, acidentes aparatosos, humor e aquela bela vingança fria que os coreanos nos dão em tela como poucos. Porque afinal, até as pessoas perfeitas têm algo negro no seu passado e terão de evoluir como seres humanos para derrotarem o destino. Contra todas as expectativas, não é o mero filme de fantasia, mas uma obra de acção sobre perdão e redenção, sem momentos mortos e que deixa a pulsação acelerada como poucos. Revitaliza o género dos loops temporais, entretém e ainda transmite preciosas lições enquanto nos leva nesta alucinante corrida. Incrível como Sun-ho Cho conseguiu tanto na sua primeira obra. Argumento, fotografia, coreografia, condução desenfreada, ângulos originais de câmara e quando entram os efeitos especiais em cena é para aplaudir. Isso tudo enquanto equilibra temas tão díspares como o mundo da política internacional, os problemas de hora de ponta e as relações familiares. No elenco o grande destaque será para o protagonista Myung-min Kim (que surgiu pela primeira vez em “Sorum” e tinha andado ausente dos filmes que chegam ao ocidente), mas estão todos muito bem. Venha agora uma segunda obra que esta não pode ser esquecida. Filmes Filmes 2017 Ciclo TemporalfamíliaNuno ReisSitges 2017