Kong: Skull Island Nuno Reis, 9 de Março de 201711 de Dezembro de 2025 O mundo precisava de um monstro para adorar. Os livros de Arthur Conan Doyle (The Lost World) e Edgar Rice Burroughs (The Land That Time Forgot) sugeriam a existência de monstros gigantes e o cinema estava desejoso de pegar no tema. Quando King Kong surgiu pela primeira vez no cinema, os efeitos especiais pós-Méliès estavam a despontar. O génio Willis O’Brien depois de adaptar as criaturas de “The Lost World” e voltar a brincar com dinossauros em “Creation”, foi chamado para o trabalho da sua vida. Na altura era mais um filme de macacos como uma dezena que saíram nessa altura. O que seria mais um da exploitation acabou por se tornar um fenómeno cultural. Foi com esse filme que muitos futuros mestres da arte do engano como Ray Harryhausen (que animou Joe Young com base nas criaturas de O’Brien) se vieram a apaixonar pela sétima arte e pelo fantástico. Sem considerar as sequelas ou adaptações, os filmes com o Rei Macaco do ocidente saíram em 1933, 1976 e 2005. Em 2017 ia sair uma prequela “Skull Island”, mas a possibilidade de o fazerem enfrentar o Rei Lagarto forçou a dar mais destaque ao macaco e a colocar o seu nome no título. Portanto, o filme sobre as origens do macaco “Skull Island” tornou-se “Kong: Skull Island”, o filme onde vemos um macaco que vai enfrentar um lagarto daqui a alguns anos. As expectativas ficaram comprometidas logo ao início. No entanto o seu elenco de luxo (incluindo o primeiro papel pós-Óscar de Brie Larson) indicava que podia não ser mau de todo. E a verdade é que satisfaz bastante. Sem entrar em spoilers, ainda que não sejam propriamente novidades para quem acompanha o peludo há oitenta anos, confirma-se o que a mitologia foi estabelecendo. Quem estiver completamente alheio à mitologia de Kong, pelo menos saberá que ele gosta de mulheres louras e de escalar ao topo de prédios. Como na Ilha da Caveira não existem prédios, já sabem a que se vai agarrar. O resto do filme é uma viagem ao trauma do Vietname (tem lugar nos dias após a retirada americana do conflito) e existem diferentes facções em conflito, por motivos históricos, de sobrevivência, ou de vingança, perdendo-se a linha entre quem tem razão e quem tem autoridade. Na realização de Jordan Vogt-Roberts que vem da televisão, a influência maior no visual balança entre Coppola e Kurosawa, mas de forma muito discreta. Consegue construir a sua própria narrativa com três grupos distintos em tela (sem contar com os meros observadores) e equilibrar tanto as homenagens aos anos 70 como a acção pura, deixando muito pouco por fazer. Visualmente foi feito a pensar no 3D e merece ser visto em IMAX se tiverem oportunidade. Mas é um filme que sobreviverá ao teste do tempo melhor do que o de Jackson por conseguir criar um elo para além das homenagens. Nem que seja apenas pela acção com que nos bombardeia até ao final. A Legendary continua a ser incontornável no que diz respeito ao cinema kaiju ocidental. O lado humano da questão confirmou o talento dos protagonistas, em especial o trio forte dos filmes Marvel que aqui tomam as rédeas e cada um por si ou em conjunto roubam o holofote. Os enormes Goodman e Reilly (que também foi Marvel, mas sem poderes) repetem papéis habituais para si. Hiddleston e Jackson voltam a provar que conseguem segurar um blockbuster sozinhos sem esforço. E Larson faz ver a Hollywood que só não conseguiu melhores papéis antes porque a indústria andava cega. Isso acabou e agora pode ter os papéis que quiser. Quanto a Kong, deixem a besta crescer. Alguém terá de enfrentar Godzilla e mal podemos esperar. Filmes Filmes 2017 AnimaisFlorestafotografiaGuerra do VietnameKing KongMulher forteNuno Reisprequela