Believe Me: The Abduction of Lisa McVey (TV 2018) Nuno Reis, 2 de Junho de 202523 de Outubro de 2025 Gosto muito do modelo dois por um: usar um filme como desculpa para ver outro. Antecipando a estreia de “Clown in a Cornfield”, fui explorar o que a protagonista tinha feito antes. Entre as várias opções, surgiu uma com um título familiar. Uma cena dele já tinha passado no meu feed e tinha ficado apontado para ver. Estamos perante uma produção Lifetime. Esse alerta costuma ser suficiente para ficar de pé atrás. Gostam de se inspirar em crimes reais e torná-los em algo chocante, sensacionalista, mas também reconfortante. Pode parecer um contra-senso, mas são o género de filmes que se vê numa tarde de preguiça sem ter de pensar, e que se pode esquecer logo em seguida. Conforto. “Believe Me” parecia que ia ser tudo isso. Inspirado na história verídica de uma rapariga que é raptada, escapa e é acusada de ter inventado tudo, parecia seguir a fórmula de crime e drama. Mas acabou por ser uma grande surpresa. O orçamento limitado era bem visível, mas no geral muito competente. Existem três partes fundamentais. Na introdução vamos conhecer Lisa, a estrela da história. Como consegue com um sorriso desarmar os mais irritantes clientes. Como é a relação com a complicada família. Como sofre sem o mostrar a ninguém. Em algumas sinopses dizem que ela se iria suicidar naquela noite, e é visível que está perto disso, mas não o pode fazer. Não só porque sendo a personaem titular ficavamos com uma curta metragem. Emocionalmente, é daquelas pessoas que causa tão boa impressão, não a podemos perder de forma estúpida. Racionalmente, a relação com a irmã é o que a prende à vida. Tem de durar muito mais. E mesmo sendo a parte mais fácil de filmar (poucas emoções, boa iluminação, liberdade com os espaços) não convence. Katie Douglas só se destaca porque todos os outros são muito fraquinhos. A segunda parte do filme é o crime. É aqui que algo invulgar acontece. As acções do criminoso estão muito bem pensadas e bem filmadas. Rossif Sutherland – um rosto reconhecível da televisão – transformou-se nesta personagem e tem cenas incríveis com Douglas. Também a realização fica bem mais interessante com as limitações espaciais. Mas Douglas a solo revela-se. Dão-lhe uma personagem invulgarmente inteligente e com bons instintos. Escreveram-lhe bons diálogos e ela dá vida a uma vítima muito assustada, mas com vontade de viver e capaz de manipular um sociopata. Já vi actrizes mais experientes a fracassarem totalmente nestas situações devido a argumentos que não faziam uma personagem com conteúdo, apenas uma vítima indefesa. E comparando a carreira da argumentista (sem nada de destaque) com a do realizador (acostumado a dramas e policiais), terá sido na produção que isso se tornou a grande mais valia do filme. Chega então a terceira parte. A liberdade e dizer ao mundo “escapei, estou aqui”. E ser tratada como uma adolescente que fugiu e inventou uma história qualquer para não ser castigada. Era aqui que estava a arte. Deixar implícito o que se deveria sentir ao ver. Os polícias têm uma boa justificação: procuram um serial killer activo. Uma menor a pedir atenção não merece atenção. Até que a passam para o Sargento Pinkerton, especializado em crimes sexuais. É então que vamos ter mais uma amostra do que Lisa fez, de como foi destruída pelo trauma, e como uma palavra amiga ou alguém acreditar podem fazer a diferença emocional. Também uma grande interpretação de David James Elliott que traz a segunda faceta humana para uma história que estava demasiado impessoal. Vários filmes banalizam as vítimas. Aqui Lisa tem sempre o seu espaço para mostrar emoções e Douglas fá-lo muito bem. Depois de a polícia estar em acção, já não interessa. O trauma de Lisa e a sua recuperação é tudo o que queremos saber. Mas ainda vamos ter um desfecho em condições, tal como um qualquer biopic. Pois por muito bem escrita que esta Lisa da ficção tenha sido, muito do que se passou foi real para a Lisa de carne e osso. Filmes Filmes 2018 Nuno Reis