Mandy Nuno Reis, 25 de Setembro de 201825 de Agosto de 2025 Todos os anos em todos os festivais há filmes que nos fazem pensar. E esses pensamentos podem ser variados. Há filmes para pensar na vida, pensar nos pecados do passado, ou pensar porque metemos dias de férias para estar ali se podiamos em alternativas estar numa bela e completamente aborrecida reunião. “Mandy” já chegava com alguma fama de ser uma experiência invulgar, mas as palavras não bastam para explicar. O filme de Panos Cosmatos foge ao que seria uma narrativa cinematográfica convencional. É uma experiência sensorial arrasadora. A trama é relativamente simples. Red (Nicolas Cage) e Mandy (Andrea Riseborough) vivem de forma pacata e isolada no meio de um bosque. Ele é lenhador e ela uma artista. O seu contacto com a civilização é esporádico. Até que um dia o destino coloca Mandy na esfera de visão de Jeremiah (Linus Roache), líder de um culto. A conversa é pouca, mas ele vai sair da sua rotina e destruir a vida do casal. O início do filme é relativamente normal. Conhecemos o casal em momentos de conversa, leitura de livros… Em termos estéticos há alguma criatividade, mas próximo dos anos 80, quando o filme tem lugar. Riseborough é exótica e perturbante. Quase como se fosse mais uma criatura da floresta do que humana. Subitamente, a estética muda. A narrativa muda. As interpretações mudam. Nada fica como era. Há quem descreva como “descida ao abismo” ou “viagem psicadélica”, mas o paralelismo que faço é outro. Imagine, caro leitor, que passou cerca de 40 horas a ver filmes de terror levemente experimentais. A última sessão – já a altas horas – induz o sono. Mas a cada poucos minutos um grito acorda-nos. Vemos algo na tela que não faz sentido. A estética, a narrativa, será um sonho, serão os filmes anteriores a serem processados numa intensa actividade cerebral que não deveriamos estar a presenciar? Será o início da loucura? Entre o que foi chamado de “motoqueiros do inferno” a fazer uma coreografia de horror e Red em modo de vingança – que inclui uma breve coroa de espinhos em arame farpado e Cage a gritar em cuecas, relatos semelhantes confirmam que não foi um sonho – somos levados na tal viagem psicadélica, ou deterioração do cérebro devido à falta de sono, ou ainda enorme alucinação causada por algo na ventilação da sala de cinema. É um estado febril de pesadelo com uma banda sonora a combinar. Nos últimos vinte anos Cage tem feito muitos filmes maus e estranhos, mas nenhum se compara a este. Para o bom e para o mal, entregou-se completamente ao papel e traz uma performance louca e descontrolada. A estética visual com iluminação entre vermelho e roxo e toques de fumo, assim como a banda sonora fazem essa interpretação solitária tornar-se algo maior. “Mandy” não é para todos. É um filme violento, cru em todos os sentidos da palavra, e extremamente estilizado. A narrativa tradicional não existe. O terror foge às nomas. Para quem procurar algo original, audacioso e visualmente diferente, “Mandy” é quase obrigatório. Mas ainda não sei dizer se gostei. Filmes Filmes 2018 MOTELx 2018Nuno Reis