Jojo Rabbit Nuno Reis, 21 de Março de 202011 de Agosto de 2025 Não há tema mais explorado que a Segunda Guerra Mundial. Todos os anos saem dezenas de filmes sobre a guerra, as causas, as vítimas, os sobreviventes, os negócios, os criminosos… E de vez em quando somos presenteados com uma peróla que vai contra tudo o que já vimos antes. Todavia, por muito que se tente inovar, o horror já atingiu um ponto que não choca. A única forma de ser lembrado, é ser muito diferente. E nada é mais ousado do que fazer humor com esse tema. A última vez que isso funcionou foi com os “Inglorious Basterds”, mas este é mais próximo de “La Vita è Bella”. Jojo é um membro da juventude hitleriana extremamente orgulhoso da sua raça. E o seu amigo imaginário é o próprio Hitler. A mãe tenta educá-lo a ver o mundo de uma forma mais humana, mas para Jojo todo os judeus são monstros peludos com cornos, presas e garras afiados. A economia alemã está esticada com o esforço de guerra pelo que a vida dos cidadãos tem algumas dificuldades. Jojo percebe que algo se passa, mas está certo da vitória. O que não percebe é porque tantos soldados lhe rondam a casa. Há temas com os quais não se brinca. A não ser que se tenha certeza absoluta do que se está a fazer. Taika Waitiki já tinha credenciais para fazer comédia com o que lhe apetecesse, e o simples facto de ter ficado com o papel de Hitler para si mesmo era um grande risco. Mas indiretamente foi uma forma de proteger outros pelo que eventualmente corresse mal. E teve imenso retorno nesse risco, pois este é o papel pelo qual será lembrado. É como estar a ver uma versão ainda mais ridícula do ditador que a escrita para “The Producers”. E por ser uma personagem menor, conseguiu dosear o ridículo desaparecendo de cena quando não tinha nada a acrescentar. Excelente escrita. No elenco além de Scarlett Johansson, encontramos ainda Sam Rockwell com a qualidade de sempre, e mesmo em papéis menores temos estrelas do calibre de Rebel Wilson e Stephen Merchant. No entanto as verdadeiras estrelas são mesmo pequenas. O estreante Roman Griffin Davis é um delicioso Jojo, e Thomasin McKenzie é o trunfo do filme. Apesar de esta actriz já ter uma carreira considerável (tanto com papéis de protagonista em pequenas produções como um pequeno papel na saga “The Hobbit”), aqui tem as frases que não só abalam as noções de jojo, como fazem os adultos na plateia pensar. Enquanto Davis interpreta uma criança forçada a crescer depressa, McKenzie dá vida a uma criança que não teve infância. Teve de crescer. E no entanto consegue ainda ter sentido de humor, muita imaginação e alguma esperança. Este equilíbrio de personagens tão complexas e tão bem escritas que se complementam, acaba por ser o cerne do filme, cuja trama – também excelente – acaba por ser um detalhe menor. É um filme capaz de nos fazer sorrir e chorar visionamentos sem conta. Houvesse algo assim todos os anos… Filmes Filmes 2019 Nuno Reis