Enola Holmes Nuno Reis, 30 de Setembro de 202215 de Agosto de 2025 Quando me surgiu o título “Enola Holmes” nas sugestões da Netflix, assumi que fosse uma forma de promoverem a sua nova estrela, Millie Bobby Brown. Seria mais uma versão do clásssico Sherlock Holmes, numa perspectiva feminina. Entretanto descobri que existia toda uma série de livros (seis muito anteriores ao filme e quatro lançados após o sucesso do filme). Aprofundando a minha investigação, descobri que Nancy Springer já o tinha feito antes, contanto as aventuras de Rowan Hood, filha de Robin Hood. No caso de Sherlock, como a autora não imaginava o detective a formar uma família, optou por lhe dar uma irmã. Enquanto Springer construía esta heroína aproveitou muito do que foi a sua infância para escrever alguém credível. Esta aventura começa no dia do aniversário de Enola. Ao contrário de outras jovens que ficariam felizes por fazer 16 anos, Enola descobre que a sua mãe desapareceu, deixando apenas uma série de prendas enigmáticas. Os seus irmãos muito mais velhos, Sherlock e Mycroft, decidem que o melhor para ela seria passar a estudar num internato que a ajude a tonar-se uma senhora de classe. Mas claro que Enola tem a investigação no sangue e aproveita a viagem a Londres para procurar a mãe e enfrentar uma conspiração que compromete o futuro. Ao ver o filme, percebi que não estava totalmente enganado. É um produto focado no público infanto-juvenil que se apoia imenso nas aventuras de Enola. Para isso está completamente dependente de Brown. A actriz aceita de bom grado a tarefa e consegue levar a narrativa a bom porto sem problemas, ainda que a presença de Henry Cavill como Sherlock por vezes nos desfoque da protagonista. Mas se a série dispensar o famoso irmão, é perfeitamente possível manter o público interessado, apoiado apenas no talento feminino. Brown é carismática e não se intimida com o primeiro papel de protagonista ou por ser a personagem titular. A aposta Netflix nela está a dar frutos. Para um público mais maduro, algumas opções narrativas poderão ser exageradas (em especial os ocasionais ataques à quarta parede) e a forma como Sherlock é retratado é ofensiva para quem leu os livros (ou viu qualquer adaptação séria). Apesar desses pontos menores no argumento – de Jack Thorne, um habitual nas adaptações literárias – Harry Bradbeer (realizador) faz o que pode com o que tem. Pode não ser um nome reconhecível no cinema, mas o seu trabalho mais popular é a multi-premiada “Fleabag” e os vários episódios que dirigiu de “Dickensian” dão-lhe créditos para fazer qualquer trabalho da época vitoriana. Esse conforto do ambiente familiar pode ter sido a chave para o filme funcionar tão bem. Quem está acostumado a filmes de mistério ficará muito defraudado. Mas considerando a faixa etária pretendida, a qualidade de produção, e encaixando no género aventura, é um digno entretenimento familiar. Cai na categoria filme-pipoca sem argumentos ou pretensões de ser mais. Filmes Filmes 2020 NetflixNuno Reis