40 Acres Nuno Reis, 23 de Dezembro de 202523 de Dezembro de 2025 Hoje vamos falar de um dos filmes malditos de 2025. “40 Acres” fez o percurso dos festivais em 2024, estreou comercialmente em 2025 e com um número impressionante de salas no Canadá, mas não só teve péssima bilheteira no seu país de origem, como passou despercebido no resto do mundo. Talvez por ser demasiado forte, ou por ser uma mensagem mais para o público do vizinho a sul do que propriamente para onde foi rodado. Começemos por dizer que, apesar de ser a primeira longa de R.T. Thorne, dificilmente o podemos chamar de novato. Ao longo da última década fez mais de meia centena de videoclips, uma dúzia de séries, e duas curtas. Era só uma questão de mudar de formato. Também os seus co-autores se estavam a estrear em longas. Não se nota. O elenco não é sonante, mas é liderado pela imparável Danielle Deadwyler que nos últimos dois anos tem coleccionado prémios e nomeações pelo seu desempenho em “Till” e “The Piano Lesson”. Isto também era apenas uma pequena mudança. E o resultado foi que todos ganharam um trabalho que fica muito bem no currículo, se as pessoas o forem ver. A história tem lugar num futuro não muito distante, Uma pandemia fúngica levou ao fim dos animais e a uma segunda Guerra Civil nos EUA por comida. No Canadá a família Freeman, liderada pela matriarca Hailey (Deadwyler) e pelo seu parceiro Galen (Michael Greyeyes), são dos poucos que se aguentam com um punhado de terra para plantar. Os restantes ou sucumbiram à fome, ou adoptaram o canibalismo. Entre o medo que lhes roubem a terra, ou que os devorem, Hailey treina a família para disparar primeiro e perguntar depois. Qualquer hesitação pode ser o fim. Eles não levam isso muito a sério, mas obedecem por medo. Um dia, o filho Manny distrai-se e comete um pequeno erro. O filme tem duas fortes vertentes. A pós-apocaliptica é a mais simples. Agricultura, literatura, comunicação e pontaria é tudo o que é preciso fazer para sobreviver e manter um mínimo de civilização. A caridade desapareceu e a humanidade está a caminho disso. Vamos ver o pior das pessoas e acreditar que é o mais provável desfecho. A segunda vertente não está disfarçada. É sobre as feridas históricas e como o trauma geracional perdurou e como é agravado em situações limite. “40 acres e uma mula” foi a definição de reparações prometida aos escravos no final da Guerra Civil. Até hoje esperam por isso. Pelo que a família Freeman dá muito valor ao território que é seu e luta por isso. Metaforicamente perder a terra seria perder a liberdade e o direito à vida. Atendendo à situação, não estão longe da verdade. Sobreviver tem um custo muito elevado e mentalidade “eles ou nós” está justificada pelo passado. Hailey é a frieza. Foi militar e sabe que um único erro é o fim. Do outro lado da vedação estão pessoas que matam sem hesitar. Manny é outra geração. Cresceu nesse estado de sítio e não se lembra da normalidade. No entanto, anseia por ter contacto humano. Essa dicotomia vai alimentar o filme de forma soberba. Onde devemos traçar a linha de segurança. Visualmente, o filme é constantemente claustrofóbico. Estão quase sempre fechados em casa ou mesmo na cave, quando estão no exterior estão agachados e fazem movimentos estudados ao promenor. Como logo na abertura temos uma explosão de violência, sabemos que está iminente. E as constantes pequenas coisas ouvidas no rádio ou vistas na idas ao exterior contribuem para isso. É como se o espectador ainda se preocupasse mais do que as personagens. A aparente divisão em capítulos ajuda a aliviar, mas ainda assim a tensão não diminui. A última hora tem talvez dois minutos de conversa quase normal, tudo o resto é para manter a pulsação acelerada. E sempre com uma fotografia incrível, seja dia ou noite. Novamente, um dos grandes filmes esquecidos de 2025. Esperemos que corra melhor em streaming. Filmes 2025 famíliaMulher forteMundo pós-apocalipticoNuno Reis