Zoe Nuno Reis, 17 de Janeiro de 202623 de Janeiro de 2026 Quando o tudo e o nada são o mesmo Hoje vamos falar de mais um filme que dificilmente chegará aos nossos cinemas. Uma comédia italiana centrada quase numa só personagem. Que fala da vida e do amor, mas que principalmente veio para nos fazer pensar. Zoe é uma mulher italiana com uma vida desprovida de significado. No Carnaval encontra um pequeno mágico que lhe concede um qualquer desejo. Deppis de Zoe dizer muitos disparates, ele decide o que ela precisa: três oportunidades de experimentar novas vidas e se conhecer. E lá vai Zoe, magicamente saltando entre cidades, começando sempre uma nova vida sem conhecimento do que se passou na véspera, apenas com tempo para se deixar ir e disfrutar o momento e a nova e aparentemente perfeita vida que tem. Emanuela Galliussi é uma actriz com alguma carreira que decidiu tomar as rédeas desta produção. Com isso digo além de o protagonizar, o escreveu, co-realizou e co-produziu. Só como realizadora é que foi uma estreia nas longas, em tudo o resto já tinha trabalho feito. E colmatou esse detalhe trazendo-nos um filme muito bem compartimentado, em que cada história é bem quase estanque em localização, em idioma, e em mensagem. Começa em Itália onde Zoe tem a primeira crise. Tem um emprego fácil (filha da patrão), casa paga, veste-se como quer (e de formas bem ridículas). A aproximação da menopausa vai fazê-la pensar na vida e se não é melhor fazer planos de futuro, e vai ouvir da melhor amiga que é uma péssima pessoa. É assim que nos apresentam Zoe e no entanto, até gostamos dela. Quantos de nós não gostaríamos de chegar aos quarenta com as responsabilidades de alguém com quinze anos, mas muito mais dinheiro e idade para beber. Com as várias viagens vai falar cada um dos idiomas locais (e não se sai mal) e vai ter vidas de sonho. A versão espírito livre, a versão com dinheiro, e a versão profissional de prestígio. Vai ter um caso espontâneo, uma relação que evolui, e um casamento sólido. Vai ter em cima da mesa se quer família ou carreira. É a crise de identidade em várias vertentes. Mais tempo tivesse, mais vidas viveria. E no entanto, aponta sempre defeitos a cada ums dela porque a vida real é assim mesmo. Imperfeita. Divertido e descontraído, este filme não quer saber das regras da realidade nem quer ser levado demasiado a sério. É sobre magia e tem um formato semelhante aos três fantasmas que davam a Scrooge uma visão do que a sua vida era e podia ser. Galliussi faz o filme quase sozinha e ainda que comece com um humor espalhafatoso, dá para ver que é uma pessoa frágil e confusa. Que se apercebe que não pode culpar ninguém pelas próprias escolhas. E que apesar da facilidade em entrar nos lugares-comuns, nunca parece cliché. Cada história tem sempre algum detalhe que basta para ser diferente do que se esperava. Não é um filme com grandes mensagens. É sobre segurar as rédeas da própria vida. Zoe vai ter três vidas que, pelo que percebemos, estão ligadas a coisas que gosta de fazer. Pode cair de paraquedas, mas consegue desenvencilhar-se em cada uma delas. Portanto é sobre aproveitar as oportunidades. Mas também é sobre crescer e assumir riscos e responsabilidades. Deixando sempre a criança que fomos vir cá fora para nos recordar que a vida é mais do que trabalhar para ter dinheiro. Filmes 2026 casamentocaso amorosofotografiaMagiaNuno ReisViagem