Free Guy Nuno Reis, 15 de Março de 202425 de Outubro de 2025 Lembro-me de um tempo em que o terror era fácil de fazer. Depois chegou o factor telemóvel e ficou muito mais complicado conseguir o isolamento. E quando chegou o smartphone, a ignorância deixou de ser uma desculpa. O terror teve de se reinventar depressa e começar a ir para o meio do nada, de forçar a queda do dispositivo na água, ou usar alienígenas e operações militares como pretexto para não haver comunicações. Tudo para dar sentido ao que antes era facílimo de fazer e de um dia para o outro se tornou impossível. Consequências dos tempos modernos. Isso pode ter sido horrível, mas também tivemos o contrário. A evolução dos videojogos deu-nos um pretexto para todo um novo mundo de possibilidades cinematográficas. “Wreck-it Ralph” para os mais pequenos, “Ready Player One” para os nostálgicos, e “Free Guy” para os restantes. O mundo tem a sensação que, desde que se tornou uma estrela, Ryan Reynolds faz apenas o que quer. E ainda que seja desbocado e incontrolável na pele de Deadpool, no resto acaba por ser até um ator bastante normal. Filmes de ação com um toque de comédia são o seu forte, e este foi o pontapé de saída oficial, quando se confirmou que o nome Reynolds sozinho bastava para vender qualquer produto. Então de que trata “Free Guy”? É sobre Guy, um NPC que descobre ser capaz de fazer mais do que o argumento que lhe deram. Farto de ser assaltado a cada 5 minutos, toma as liberdades criativas dos jogadores e vai subindo de nivel ignorando as regras. Para a comunidade de jogadores é a novidade, uma sensação. Para a empresa do jogo, é um bug que tem de ser eliminado. Para algumas pessoas, é a prova que algo no jogo está mal e exige uma investigação mais profunda. Como informático tenho sempre as minhas dúvidas quando um filme se aventura no mundo dos computadores para dizer o que é ou não possível. Tendo Kal Penn (de Ready Player One) dei o benefício da dúvida e não correu mal. No geral, só metade das justificaçóes são estúpidas. Tem demasiadas semelhanças com o filme referido anteriormente, ainda que sem a nostalgia toda, mas compensa adicionando várias dezenas de referências a videojogos e empresas do meio. Todas as personagens são facilmente esquecidas, ainda que algumas frases perdurem orfãs na nossa memória. A busca de humanidade entre quem foi criado por bits dá origem a pensamentos e diálogos com muita substância e admira-me não estarmos inundados de tiktoks com essas pérolas. O filme em si tem uma sólida narrativa principal escondida sob a epopeia de Guy, várias narrativas secundárias que no geral até se podem ignorar e, apesar de o final tentar juntar várias pontas soltas, exagerou. Um maior foco e consistência na história principal teriam dado um melhor produto. Funciona como blockbuster de verão para rever na televisão por anos a fio e tem potencial para sequelas e spin-offs como Hollywood adora, mas como obra cinematográfica faltou um pouco mais. Talvez um pouco de empatia pelas personagens humanas fosse suficiente. Momentos como o gelado ajudam, mas não bastaram. Acabou por ser apenas sobre Guy que, apesar de toda a IA em cima, deveria ser visto como apenas um produto ou um veículo de comunicação entre seres humanos. Esta tentativa de humanizar software poderá funcionar no futuro, mas à data de hoje, ainda queremos estar do lado dos humanos. Filmes Filmes 2021 Inteligência ArtificialNuno ReisVideojogos