Ghost Boy Nuno Reis, 26 de Outubro de 202526 de Outubro de 2025 Imaginemos o que é ser uma planta. Algo que fica parado num cantinho da sala, a ser ignorado. A ouvir sem que reparem em nós. A desejar que não se esqueçam de pelo menos nos regar. A suspirar por uma palavra que seja dirigida a nós. Ou um fantasma. Ainda estamos na casa que conhecemos, mas as pessoas ignoram-nos, se calhar até se mudaram. Agora, imaginemos o que será isso para uma pessoa. Esta é a história de Martin Pistorius. Entrei para este documentário sem espectativas. Nem sabia o que ia ver. Começa como o tradicional documentário, a contar a vida familiar de uma pessoa pela infância. Só que Martin não é como as outras pessoas. Um dia, ele ficou doente e pouco depois estava imobilizado, um vegetal. Passado um ano, os médicos desistiram de procurar uma cura e puseram num centro para cuidados paliativos. O mundo tinha desistido dele, os funcionários tratavam-no como se estivesse em coma para sempre. E Martin ainda lá estava. Com a mente enevoada e muito confuso, mas ainda lá. A viver miseravelmente e condenado a isso até ao fim dos seus dias. Um rapaz fantasma. O filme vai recriando com actores a vida monótona de Martin e os seus pensamentos. Muito bem escritos para quem não concluiu a escola. Subitamente, quando parecia que seria apenas um grande lamuriar, algo muda. Uma pessoa trata-o como um ser humano. Fala, como se ele ouvisse. Pergunta, esperando por uma resposta que não virá. Dá estímulos quando para o mundo ele não existia. Investiga e dá esperança a uma família sem capacidade anímica para continuar a lutar. A segunda metade é bem diferente. É como se pode passar do zero ao oitenta. Como se pode ansiar a ser alguém quando se foi nada. Como é sonhar e desejar, quando só se queria morrer. E tudo isso com uns toques de humor inteligente e ingénuo muito reconhecível. “Ghost Boy” é muito lento. Para vermos a realidade de uma comunicação que foge às normas. É muitas vezes apenas um plano da cara do nosso protagonista, enquanto esperamos que o audio do computador dê contexto às emoções transmitidas pelo rosto. E o que sai é um texto cuidado, com muita inteligência, ainda que sem pontuação ou emoção. É um produto difícil de explicar. Que se aprecia melhor não sabendo nada sobre a pessoa, mas também se esforça para ir além do que o livro com o mesmo nome nos deu. É dos visionamentos mais monótonos que se pode ter, mas felizmente isso só simboliza tranquilidade. Porque saímos de coração cheio, motivados para dar o nosso melhor e, principalmente, para não tratar as pessoas como uma planta ou ignorar como um fantasma. Há alguém lá. Filmes Filmes 2025 BiografiaComaNuno ReisSíndrome do EncarceramentoSuperação