Girls on Wire Nuno Reis, 3 de Fevereiro de 202630 de Janeiro de 2026 O cinema chinês tem passado despercebido por estes lados. Quase todos os meses estreia um filme e os espectadores são reduzidos. Isso é resultado de um mercado muito fechado em si mesmo. Quase não aceitam filmes estrangeiros – aos quais obrigam a ter no mínimo um nacional na equipa – e não fazem grande esforço para se promover internacionalmente. Vantagens de se ter um enorme mercado doméstico. Todavia, esta semana chega às nossas salas um filme que pode funcionar. Um melodrama contemporâneo com vários momentos de wuxia. Tian Tian é uma jovem que está prisioneira de uns traficantes. Evade-se matando o captor e foge em busca de ajuda. A única pessoa que conhece que a pode ajudar é a prima Fang Di, uma dupla que toda a família admira como a estrela de cinema. Só que as primas outrora quase irmãs estão afastadas há anos. A família tem vários problemas há décadas e Fang Di – a única com um emprego – está atolada em dívidas que não são dela. Ou as duas se unem para resolver isso de uma vez, ou os problemas só ficarão maiores. A narrativa tem uma estrutura peculiar. A informação chega-nos fragmentada e só ao fim de quase uma hora temos informação suficiente para formar uma opinião sobre a culpa que acaba por ser de muita gente. Até lá os preconceitos só atrapalham. Quase toda a história é contada como um melodrama que converge para o drama, mas tem uns momentos deliciosos de humor pelo meio. Como os capangas que as procuram e acabam na equipa artística das rodagens em curso. Completamente inusitado, mas tão adequado que não dá para esquecer. Também as cenas que Fang Di está a gravar permitem escapar por um pouco da realidade. Apenas para nos darem um soco por serem também bastante abusivas. Além dessa rotação frequente por temáticas, temos os flashbacks para a infância. Para saber qual o grande problema, como começou e como as duas pequenitas cresceram com um pesado e injusto fardo nos ombros. Toda esta informação podia confundir um pouco, mas funciona. Tirando o ocasional agente duplo que nos troca as voltas e uma surpresa de vez em quando, é um formato sólido e tanto adequado a quem quer cinema moderno, como aos nostálgicos do wuxia que raramente conseguem ver novidades no género. Na vertente dramática é um filme sobre família, sobre honra, sobre como um momento pode levar a gerações destruídas e como a droga é a raiz de tantos males. Mas é também sobre responsabilidade e obrigação em fazer melhor como se for capaz. De garantir que as próximas pequenitas estarão num patamar melhor que as actuais. Vê-se com gosto e termina num instante. Filmes Filmes 2025 famíliaMulher forteNuno ReisTráfico de drogaVingança