Good Boy Nuno Reis, 14 de Novembro de 202514 de Novembro de 2025 Quando penso como descrever a relação que os humanos têm com os cães, recorro sempre ao mesmo exemplo. Num dos livros para o público juvenil de Robert Heinlein, a humanidade está a ser julgada. Quando perguntam ao protagonista que espécie os pode defender, ele apenas consegue pensar nos cães. Um cão poderia dizer que os humanos são carinhosos, leais e decentes. Não por ser verdade, mas por eles verem sempre o melhor em nós. Por acreditarem em nós e nos defenderem contra tudo e todos, não querendo saber de quem ou porquê. Nenhuma máquina roubará o título de melhor amigo do homem porque temos essa ligação. Tão depressa é uma bola de pêlo em êxtase por receber festas na barriga, como está a rosnar a uma ameaça vaga e se atira ao perigo para nos defender sem pensar em si. O cão é a espécie mais pura já conhecida. Por isso Robert Louis Stevenson, numa discussão filosófica sobre os animais terem almas, afirmou que os cães estarão no paraíso muito antes dos humanos que se acham pios. À entrada para “Good Boy”, não sabia ao que ia. Só que era um filme relativamente curto sobre um cão e que esse cão seria bem comportado. O título garantia isso. Quem tanto vê Cujos como Marleys, aguenta qualquer filme sobre cães. Só que “Good Boy” é algo especial. O email que recebi falava de nomear o cão para melhor interpretação animal! Isso normalmente é para um pequeno papel num filme de humanos. Neste caso Indy é o protagonista maior e o primeiro nome no cartaz. Uma estrela. Esta é a história de Todd, um humano, e Indy, o seu companheiro peludo. Todd está doente, e para escapar ao controlo da irmã, muda-se para a quinta do avô. Uma quinta de má fama, mas onde pode estar sosegado e respirar ar puro. O avô deixou muitos VHS de terror e vídeos caseiros com o seu cão. Na falta de melhor entretenimento, Todd assiste a tudo isso. Mas Indy está em desassossego. Ele sente uma presença indesejada na casa. Uma assombração que rodeia Todd. E Indy sabe que nenhuma ajuda virá. Compete-lhe fazer tudo o que puder para defender o seu amigo. “Good Boy” foi uma produção de baixo orçamento, muito demorada, e com muito coração. O realizador usou o próprio cão e passou muito tempo só com ele e uma equipa mínima. Quando isso não bastou, colocou uns humanos a decorar a cena. É por isso um filme relativamente parado. Enquanto costumamos ver a perspectiva humana, aqui estamos sempre com uma visão mais próxima do chão. E os humanos são tão altos que nem vemos as caras. Indy não é um cão grande e imponente. É de porte médio. Ele está um pouco deorientado. Uma nova casa, um novo comportamento do seu humano… talvez aquele vulgo sombrio seja suposto estar lá. E com todas as mudanças de humor de Todd, Indy continua a estar presente. A viver e morrer por aquele amor incondicional. Apesar de ter saído um filme há uns anos com um título idêntico, a única comparação digna será com o icónico “The Babadook”. Tal como nesse filme, em “Good Boy” cada espectador pode dar a interpretação que quiser à assombração. O Mal toma muitas formas. Mas o Bem… o Bem será sempre um cão. Filmes Filmes 2025 AnimaisCãoCasa assombradadoençaIsolamentoNuno Reis