Hamnet Nuno Reis, 30 de Dezembro de 20256 de Janeiro de 2026 Existem contos maiores que o mundo. Obras de ficção mais conhecidas que momentos da história. E grande parte dessa criação monumental veio de Inglaterra, onde consideram Shakespeare o maior entre os maiores. Maggie O’Farrell decidiu entrar na psique do autor e explorar uma possível origem para “Hamlet”. E para isso vai mostrar como Will era um homem normal em muitos aspectos, apenas com o dom de transmitir por palavras os sentimentos que derrubariam qualquer um. Tudo começa quando um professor de latim fica fascinado por uma falcoeira que domina erbanária. Os boatos dizem que ela é a filha de um bruxa, mas William não quer saber. Vai casar com Agnes e ter filhos. O conflito entre William e o pai sobre o que é uma profissão digna vai fazer com que ele leve o negócio de fazer luvas para Londres onde consegue uma companhia de teatro como cliente. A saúde da filha mais nova não permite que a família se mude para a capital, mas vivem bem em Stratford. William passa temporadas em Londres. Até que a doença ataca. Tirando o detalhe de ter umas crianças encantadoras, até esta parte o filme é bastante banal. Está bem filmado, mas não prende. Até que percebemos que Jessie Buckley está a segurar o filme sozinha e temos de prestar mais atenção a Paul Mescal. Parece que a mãe centraliza em si a família e os sentimentos porque o pai está ausente, mas temos de olhar melhor para a ausência. Não é porque o amor se desvaneceu. Não é por as crianças o irritarem. É apenas para fazer dinheiro. Por acaso gosta do que faz, mas nada indica que relegou a família para segundo plano. Isso fica evidente quando a família sofre uma perda. O pequeno Hamnet que se sacrifica pela adorada irmã. Uma ausência irreparável vai acentuar outra ausência. Agnes faz o luto normal, agravado por ser uma curandeira que não conseguiu parar a doença. Carrega a dor como só uma mãe sabe. Já o pai parece indiferente. Não fala. Isso faz com que Agnes se afaste. Como pode o seu amado não sofrer da forma que ela sofre? Porque passa tanto tempo fora? Na verdade ele está a fazer um luto diferente. A escrever uma peça sobre isso. A extravazar sentimentos pela arte e a garantir que o mundo inteiro sofrerá pela morte do seu filho. Sim, o filme começa discreto. Explora a época e os sentimentos de várias formas. Por entre cenários e guarda-roupa perfeitos e uma banda sonora envolvente, temos uma história tocante. Com o passar do tempo as interpretações revelam-se sublimes e no final ainda temos direito a ver meia peça shakesperiana. Nunca mais veremos Shakespeare da mesma forma. Filmes Filmes 2025 Adaptação literárialutoNuno ReisTeatroWilliam Shakespeare