Hot Milk Nuno Reis, 23 de Outubro de 202522 de Fevereiro de 2026 Este é um filme complicado de explicar por palavras. Começa logo pelo título. “Hot Milk” faria pensar que teriamos a bebida em alguma cena chave. Não. Há calor – passa-se em Espanha – mas nada de leite. O mesmo pode ser dito do livro que inspirou o filme. Tem imensos temas claros na narrativa, mas ainda mais temas escondidos nas entrelinhas. que é actriz e argumentista e aqui se estreia como realizadora, não teve medo e foi fiel ao livro. Não em conteúdo, mas em substância. A história linear que nos é apresentada é sobre Rose (), uma senhora inglesa doente que vai experimentar um tratamento inovador em Almeria. É a sua última esperança de voltar a andar. Como companhia leva a filha e única família, Sofia (), e vão experimentar novos ares. A mãe tem uma doença muito estranha, até faz pensar em Síndrome de Munchausen pois de vez em quando consegue andar. Faz-se constantemente de vítima, mas, atendendo à situação, nem é demasiado dependente nem fica demasiado colada à filha. Podia ser pior. Já a filha, que nas palavras da mãe nunca acaba nada (seja o curso ou tirar a carta), interrompeu a sua vida para ir nessa viagem. É como se fossem umas longas férias que vai usar para descansar e se descobrir. De um lado temos Rose que podia ser uma vítima agradecida pela oportunidade, mas que continua céptica que isto resulte. Nela nada resulta. Enquanto massacra constantemente a filha e fá-la sentir-se presa à responsabilidade de cuidadora. Sente-se a familiaridade e os silêncios de quem já tem uma rotina, mas várias das frases causariam dados severos se dirigidos a desconhecidos (e temos um par de exemplos no filme). Grande interpretação de Shaw que com pouco faz muito. Do outro lado temos Sofia. Acostumada à rotina opressora, mas com muito tempo para si durante as consultas, as sestas da mãe e à noite, vai ter a sua primeira liberdade séria. Sem responsabilidades profissionais, sem a pressão dos estudos ou de manter uma imagem, esta viagem ao estrangeiro vai ser libertação. E aí temos a vertente coming of age do filme Mackey que já vimos em diversos papéis de crescida tem momentos em que parece uma adolescente no diálogo e trejeitos. Porque ainda que esteja condicionada, Sofia nunca é uma mera extensão da mãe. Tem a sua própria identidade, ou está a formá-la. Neste breve despertar até pensa numa vida longe da mãe. É sempre o foco do filme e são os seus pensamentos que temos de adivinhar. E apesar de a sexualidade ser um tema importante do filme, também é dos papéis menos sensuais que Mackey faz. Revela maturidade e um talento como actriz que eu já vaticinava há três anos, mas tem andado escondido. “Hot Milk” tem vários planos amplos, para comtemplarmos a paisagem. Tem silêncios, para tentarmos decifrar o que pensam aquelas personagens. Tem ambiguidade em quase tudo. Duas pessoas que vejam o filme juntas podem tirar conclusões opostas da mesma cena. Se o tratamento de Rose é mais conversa do que físico (para um problema que será psicossomático) também o filme acrescenta camadas para nos curar emocional e moralmente. Foi demasiado ambicioso. Não forma um conjunto coeso, mas dá vários toques certeiros na direção certa. E o final é bem poderoso pois também Sofia se foi informando e capacitando como indivíduo para tomar decisões dolorosas. Nem que seja o desmame do confortável e quente leite materno com vinte anos de atraso. Está muito longe do cinema comercial. Foi feito para um espectador que saiba ao que vai e queira silêncio e tempo para tirar as suas próprias conclusões em vez de respostas directas. As poucas revelações bombásticas funcionam. Com mais alguma informação teria sido melhor. (O filme será exibido no Queer Porto 2025 dia 8 de Novembro) Filmes Filmes 2025 famíliaNuno ReisQueer Porto 2025