Jour de Chasse (2024) Nuno Reis, 18 de Setembro de 202423 de Outubro de 2025 Se há género que foi revitalizado sem consideração pelos efeitos na sociedade, foi o rape and revenge. Numa era em que o papel da mulher está a ser redefinido, a temática pode ser bem ou mal aproveitada. E enquanto alguns filmes feitos por mulheres e com mulheres fortes acabam por ser uma homenagem a lutadoras e sobreviventes, ainda há muitos títulos que são simples tentativas de exploitation como eram há 50 anos. Apesar de tudo, o Québec tem feito filmes bons sobre experiências traumáticas (ainda me recordo de um distante “Elles Étaient Cinq” em 2004) e o facto de ser realizado por uma mulher dava-me esperanças que fosse algo com gosto. Não estava preparado para o que ia ver. Um grupo de mulheres tinham ido animar a noite de um grupo de homens numa cabana florestal. Quando o seu condutor fica sem gasolina no meio do nada, a única opção é telefonar a essas mesmas pessoas para os ajudarem. O strress da situação despoleta algo em Nina que decide não seguir viagem com eles. Só que a única opção é voltar para essa cabana. Achei que a relação profissional anterior fosse condicionar o estatuto de Nina entre os homens, mas na verdade é como se não se lembrassem dela. Não é mais um objecto de gratificação sexual, nem sequer uma mulher. Se ela vai ficar com eles, tem de se tornar parte da alcateia é é apenas isso que conta. A interpretação de Nahéma Ricci está muito competente. A personagem que nos traz parece muito transparente e estereotipada, mas tem capacidade de se adaptar ao contexto. Ainda que por vezes seja a única que mantem alguma racionalidade e contraste com os restantes, a verdade é que também por vezes temos a certeza de ser a única a manter o lado humano. Bruno Marcil é quase o oposto. O líder auto-proclamado do grupo tem alguma estratégia, mas o seu lado animal parece completamente descontrolado. Muito convicente. Entre os restantes, diria que o efeito novidade trazido por Noubi Ndiaye é um ponto forte do filme. Os demais, são apenas para fazer número. O filme dava-me expectativas. O início tinha muito potencial. O desenrolar da história é uma jornada cuidada pela mente humana, com o homem a ser retratado como mais próximo do animal e a mulher como um ser superior. Mas tudo isso construído de forma justificada e sem ser uma convencional luta de géneros. E com uma fotografia incrível, tanto dc dia como de noite, na cabana e no meio da floresta. No fim, há surpresas para todos e vários pensamentos a levar para casa. Não é um filme incrível, mas conseguiu ser original num filão que estava esgotado, e ter uma mensagem que atravessa a temática. Por vezes, é tudo o que se pedia. Filmes Filmes 2024 Cabana isoladaMOTELx 2024Mulher forteNuno Reis