It Was Just an Accident Nuno Reis, 26 de Novembro de 202528 de Novembro de 2025 Em Maio de 2025 Jafar Panahi tornou-se o primeiro realizador a vencer os prémios máximos nos quatro enormes festivais de Berlin, Cannes, Locarno e Veneza. O filme que o consolidou ainda mais foi, como tantos anteriores, filmado às escondidas no Irão. A trama não é uma crítica ao regime, mas ao que o poder faz às pessoas. E como as pessoas lidam com o trauma. Esta história podia ter tido lugar em qualquer ponto do mundo, talvez mudando o momento temporal. Tudo começa com uma família a andar de carro. A criança muito animada, o pai a não achar muita graça. Até que atropelam um cão e o carro fica com problemas. Esse pequeno acidente, que poderia ter sido fatal só para o animal, vai ter mais consequências. Vahid estava por perto quando Eghbal sai do carro a pedir ajuda. E vai segui-lo para confirmar as suas suspeitas, acabando a arrastar para um pesadelo vários desconhecidos com um desejo comum. É que Eghbal tem uma prótese. Tal como o torturador que traumatizou Vahid. Sedento de vingança, mas sabendo que pode estar equivocado, vai procurar outros prisioneiros para ter a certeza absoluta. E é esse circo que vai deambular pela cidade com uma pessoa amarrada na carrinha. Tecnicamente é um filme muito bem conseguido. A fotografia cumpre alternando entre estradas e edificios à noite, com cenas no meio do deserto durante o dia, e várias cenas em plano caos urbano. Filmado às escondidas, mas sem medo. É um filme difícil de classificar. Começa de forma muito ligeira. Lentamente entramos num thriller. E depois vai ser um drama com emoções à flor da pele com ocasionais toques de comédia. Feito por outro, seria receita para desastre. Mas Panahi sabe filmar, sabe fazer crítica social, e sabe o que é estar na prisão. Pega num tema sensível, junta situações caricatas do dia-a-dia, e brinca com o tema e as personagens para dar substância ao filme. Podia ter ido mais longe e criticar o regime, as prisões, ou os carrascos. Ter um foco. Ficou-se pelo fundamental que é ajudar na catarse das vítimas e expôr a situação de forma genérica. As diferentes perspectivas complementam-se, alguns criticam as experiências dos outros achando que a sua foi pior, ou que a sua vida ficou pior. No fundo não se aliam com uma causa comum. Só querem estar presentes na ansiada vingança. É um retrato óbvio da humanidade do qual poucos falariam. Tem também ambiguidade por num minuto estarem a falar de matar alguém, e logo depois estarem a salvar vidas. Em suma, é um filme completo e original, com uma mensagem e que faz pensar. Quando o mundo cada vez parece mais louco, nada como parar para pensar antes de se fazer algo definitivo. Filmes Filmes 2025 Cannes 2025casamentoNuno ReisOscares 2026prisãotortura