La Grazia Nuno Reis, 7 de Dezembro de 20257 de Dezembro de 2025 Paolo Sorrentino gosta de nos presentear com obras de arte que duram para sempre. “La Grazia” não foi excepção. O argumento, a fotografia, a banda sonora e as interpretações são do melhor que temos visto. Dura mais de duas horas, mas merece esse tempo. A história acompanha o presidente italiano Mariano De Santis em final de mandato. Ele tem em cima da mesa algumas importantes decisões para tomar, como a lei da eutanásia e os indultos a prisioneiros. Só que também é um homem envelhecido e, além da reforma, também começa a pensar no passado. A saúde não é perfeita e a memória da falecida esposa persegue-o. As duas horas são para conhecermos Mariano. Cada cena traz uma personagem ou uma localização. Aos poucos e sem pressas. Vamos sabendo mais sobre quem é, quem foi, como pensa, e porque é tão ponderado nas suas decisões. Também vamos conhecendo quem o rodeia e quem o tenta influenciar. Uma tarefa árdua e muitas vezes ingrata pois nem isso acelera as suas tomadas de posição, nem lhe mudam a opinião depois de formada. Por vezes o destino atira-nos o filme que temos de ver no momento certo. “La Grazia” é um filme maravilhoso para ver nas épocas de balanço como o final de ano. É sobre o nosso papel na sociedade e a marca que deixamos. Sobre a ténue linha entre a responsabilidade civil e a vida particular. E é sobre a função e o legado de um presidente da República que, convenhamos, também é um tema quente neste momento pelos nossos lados. A carreira de Sorrentino começou num filme com Toni Servillo e com ele tem continuado quase sempre até aos dias de hoje. Quando há uma personagem difícil para interpretar, recorre sempre a este génio. Servillo é Mariano. Um homem com imenso dentro de si que confia em poucos e revela menos. Nós, juntando as peças que vai dando por aqui e ali conseguimos formar um bom retrato, mas quase sempre tem ainda algo escondido que só revela mais tarde. Este é um dos seus grandes papéis, mas seguramente ainda nos dará mais. Tem vários secundários de respeito, mas o grande destaque vai para Milvia Mariglinao como mais antiga amiga de Mariano. Na primeira cena rouba o filme e sempre que aparece tem um enorme impacto na história. É a ligação ao passado e uma consciência desbocada, mas muito sábia. O tipo de amiga que alguém com poder precisa para se recordar de onde vem e que fala quando todos os outros se calam. Tem uma participação pequena, mas inesquecível. Anna Ferzetti está incrível como Dorotea, filha e braço direito de Mariano. É uma jurista melhor que o pai e é, ao mesmo tempo, o único laço familiar que lhe resta (há um filho, mas está no estrangeiro e quase não tem falas). É uma versão mais jovem do pai e sua representante. Tem cenas minuciosamente perfeitas. Quanto a cenas há várias marcantes. A que nos captura primeiro tem a ver com Portugal. A visita do Presidente português é todo um momento de protocolo, surpresa e comédia. Faz Mariano pensar na sua própria mortalidade. Muito mais impressionante que as conversas com o Papa em que Sorrentino brinca connosco. Falando de Ferzetti, a sua visita à prisão para falar com Isa Rocca (Linda Messerklinger) é fulcral. Perante aqueles olhos um homem não estaria racional, mas Dorotea é mulher e é profissional ao extremo. Está lá para ouvir na primeira pessoa o que aconteceu (que vai dar ao tema da eutanásia) e para fazer perguntas. Para encontrar algo na lei que atenue a gravidade dos factos, sem querer saber dos olhos. Simples, mas com enorme significado. O resto do filme é no mesmo tom. Várias cenas poderosas, diálogos inteligentes, material para fazer pensar. Sempre em torno da dicotomia vida e morte. Por isso é um filme que todos deveriam ver. A morte é inevitável, e poder chegar a quando se pensa nisso é uma sorte. Mais vale estar preparado e ver este filme é das melhores formas de explorar o tema. Estamos no mês em que mais filmes de qualidade estreiam, mas, por enquanto, este é o melhor filme do ano. Filmes Filmes 2025 eutanásiafamíliamorteNuno ReisPolíticareligiãovelhice