My Father’s Shadow Nuno Reis, 6 de Dezembro de 20256 de Dezembro de 2025 Há várias décadas que a indústria de cinema nigeriana tem sido referido como a maisaprolífico do mundo. No entanto, a qualidade nunca era referida. Tinham volumes que superavam até a Índia, mas tudo para consumo doméstico – por vezes nos países em volta – nunca rompendo as fronteiras continentais. Até que este ano um filme não só chegou a Cannes, como saiu de lá com um prémio. Akinola “Aki” e Olaremi “Remi” são crianças e irmãos. No meio das suas brincadeiras típicas, eis que chega o pai, Fola. Não o viam há algum tempo e ficam surpreendidos por ele já querer sair outra vez. assim nem se vai cruzar com a mãe que foi à vila! É quando Fola decide, algo impulsivamente, levar as crianças consigo.Poderão ver como a viagem é demorada e perceber um pouco do que ele faz em Lagos. E então lá partem para um dia especial. “My Father’s Shadow” podia ser uma história muito simples. É sobre dois irmãos que passam o dia com o pai. O grande detalhe é que tem camadas e esse é só a primeira. Sobre crianças a crescer sem o pai por perto, porque ele quer fornecer dinheiro à família. Ironicamente, decisão que tomou por ter tido um pai ausente e querer melhor para a sua família. É sobre conhecer os amigos do pai e ouvir falar dele por terceiros. Conhecerem uma nova faceta. O filme não tenta inventar nesse território. Explica um pouco a distância e inicia a recriação de laços. Vemos algumas lições importantes que ele lhes passa e revisita lugares onde criou memórias com a mãe deles. Está decente. A segunda camada é a vida do pai na cidade. Os conhecidos de quem fala menos. Ou com quem fala às escondidas. Quase uma vida paralela. Somos tratados como as crianças e só nos dão algumas pistas. Temos de assumir o resto. Agora o detalhe mais importante. Isto não tem lugar no presente. A história tem lugar em 1993, quando o país ansiava pelos resultados de uma eleição que não saíam. A economia estava em supenso com uma falta de petróleo e cortes regulares de corrente. E Fola faz parte dos que querem mudança. Ele acredita que MKO Abiola venceu e o país finalmente sairá da ditadura militar onde os líderes mudam, mas o país fica na mesma. Só que o presidente em funções vai invalidar as eleições e causar um levantamento popular e uma mais presença das forças militares para “manter a paz”. Esta transição que deveria ter ocorrido em 1990 e só foi a eleições em 1993 só ficou concluída em 1999. A nossa imagem colectiva da Nigéria deriva dessa fase negra. E esse seria o ponto em que a esperança reinava. Pelos olhos das crianças vemos pedintes mutilados, inflação galopante, empresas paradas como algo normal. O pai que não é pago há meses tenta não lhes transmitir preocupações. São felizes na sua inocência. E subitamente tudo muda. É um filme com um tema pesado. Auto-biográfico para os irmãos que o escreveram, mas que reflecte toda uma geração. E é apresentado com ternura e talento. A democracia pode ter falhado nessse dia, e este filme ser agora o ponto de viragem para a Nigéria. Um em que se exorciza os demónios do passado para construir um novo Cinema, com uma mensagem para o mundo. Filmes Filmes 2025 Cannes 2025Crise PolíticaNuno Reisviagem em família