O Agente Secreto Nuno Reis, 11 de Dezembro de 202511 de Janeiro de 2026 Neste filme temos gente, e temos muitos segredos, mas, exceptuando quando vemos Belmondo nas telas em “Le Magnifique”, não temos agentes secretos. É uma história de gente comum num período onde o normal não tinha lugar. É sobre um homem, que é também um pai, mas nada mais pode ser dito para não estragar o filme. A história começa com Marcelo (Wagner Moura) a conduzir e a parar para pôr gasolina. Aí tem um contacto imediato com o absurdo, pois está um cadáver no meio do caminho e ninguém faz nada. Quando surge a polícia é para investigar o condutor e pedir suborno, não para resolver o que aparentemente seria a prioridade. Algo está podre no reino e não é o morto. Com mais algum contexto, localizamos melhor o período. Segunda metade da década de 70, Ernesto Geisel era presidente. Marcelo é um homem culto a tentar viver em anonimato. Mas o irónico destino vai colocá-lo bem no centro da confusão, para poder assistir a tudo. Um dos grandes truques do filme é não dizer mal da ditadura ou sequer falar do tema. Faz uns desvios óbvios de câmara para mostrar os retratos na parede, mas apenas isso. Não fala de política, vai falar do que acontecia nas cidades a pessoas comuns. Vamos ter um toque de autenticidade, como a lenda da Perna Cabeluda e alguns factos verídicos de então, mas no geral são coisas normais do dia-a-dia. Vai passar pelas salas de cinema para vermos “Jaws” e “Shining”. Vamos ver como funcionavam os arquivos de identificação civil e como era a polícia. Como as pessoas se divertiam e os temas que calavam. E também como se moviam nas sombras. Afinal aqui há algum secretismo e uma rede clandestina! Mas nada de agentes secretos a espiar. Apenas gente a tentar remediar as vidas que o estado tentava apagar. Com tempo vamos conhecer as várias camadas de Marcelo. A sua vida passada, porque está agora escondido e de quem foge. Todas as pessoas que o ajudam e quem o tenta encontrar. Aqui Kleber Mendonça Filho utilizou vários dos seus colaboradores habituais para criar um enorme leque de personagens de ambos os lados desta luta. Até para o alemão exibido como aberração de feira foi buscar Udo Kier! Mas no geral recorreu à prata da casa, como actores do seu “Bacurau” e personagens do seu “Retratos Fantasmas”. Rostos comuns para dar vida a pessoas comuns. E a cada personagem, mais um pouco de Marcelo é revelado. Um homem bom metido numa situação complicada que só quer sossego para si e para o filho que insiste em ver o Tubarão. É um filme longo, com muito contexto para dar, mas com uma mensagem simples. O que o Brasil é hoje, é resultado do que foi na época. O que está mal no Brasil hoje, já está há muito tempo. E também manda uma indirecta à descolonização de Angola. Dá um toque ao fantástico com uma aberração felina e a tal perna saltitante (confesso que antes deste filme só conhecia o Saci) e até um tubarão com apetite por humanos, mas é um filme onde só as balas fazem jorrar sangue. Nada de excessos para além do real. O real era misterioso e complicado o suficiente. É um filme que funcionará melhor para quem conhecer esse período, será certamente delicioso para quem reconhecer os locais, mas que a poucos minutos do fim fará quebrar os resistentes. Porque quando descobrimos que há mais gente a explorar esta história, vamos começar a sentir o mesmo que elas. É uma lição de Cinema por quem o sabe fazer. Apesar de ter andado afastado por uns anos, Mendonça voltou em grande. Filmes Filmes 2025 Cannes 2025Crise PolíticafamíliaNuno Reis