O Lugar dos Sonhos Nuno Reis, 11 de Setembro de 202526 de Dezembro de 2025 “Isto não é um videoclube” O ser humano sempre teve vontade de comunicar. Primeiro inventou a fala e o desenho. Lentamente foi complicando, sempre em busca de uma forma de transmitir os pensamentos para além do que as simples palavras conseguiam. Quando inventamos o Cinema, parecia que tinhamos todas as respostas. Era a arte perfeita. Os primeiros realizadores eram amantes da arte que a usavam para mostrar o que viam na sua terra. Não demorou nada até começarem a mostrar o que vivia apenas na sua mente. E o mundo real passou a ser melhor pois tínhamos um mundo mágico como escape. Claro que isso levou a que também fizessem filmes sobre Cinema. Muitos e bons. Sobre o mundo do VHS é que nem tantos. Certamente se lembram de “Be Kind, Rewind” e temos a curta nacional “Videoclube” (podem ver aqui), mas são poucos. Agora chega-nos um filme com um misto de ambos. Por um lado, é o encanto pela magia do cinema. Por outro, é encarar que o VHS morreu. João é uma criança como tantas outras da sua geração. Acostumado a video-jogos e a videos muito curtos. Quando a mãe o leva a passar algum tempo com o avô Júlio, ele estranha a vida pacata da vila. E não percebe o encanto das cassetes até conhecer Inês, uma menina da sua idade. Também ela de fora, mas acostumada à vila e a maior apreciadora do videoclube, sabe disfrutar de um filme. Intrigado com o que terá de especial, João vai ver um filme com o avô. E depois outro. E outro… Subitamente, está rendido como todos nós. Contudo, tal como nos filmes há um vilão, também aqui nem todos vivem felizes. E alguém quer destruir o negócio de Júlio. Morgado como argumentista/realizador já fez coisas suficientes para evitar erros básicos. Aqui não podia centrar a história em crianças sem ter direcção artística a condizer. Esse é o grande ponto fraco. Ignorando isso, não está mal. Teve humor para disfarçar que não sabia começar o filme. Relegou-se a um pequeno papel que por acaso é na cena mais divertida do filme. Teve o final que queria. O elenco adulto está bastante bem. De Carlos Areia já se esperava, mas os restantes também fazem bem as suas cenas. O argumento é fácil de seguir, tem momentos bem divertidos, e optou por filmes que todos conhecem o que pode parecer básico, mas na verdade foi sensato. Temos de saber o que estão a ver para saber o que sentem. Ainda que se possa questionar a idade a que as crianças viram determinados filmes, com têm supervisão especializada isso não é tema. E as comparações óbvias com o “Nuovo Cinema Paradiso” serão injustas. Ver o filme é voltar às memórias de infância. É recordar que o filme certo visto no momento certo pode mudar vidas. Que temos de acreditar nesses sonhos para sermos melhores pessoas e para ajudarmos o próximo. Mesmo que pareça impossível. Quem for de outra geração terá ainda o bónus da nostalgia das cassetes. Hoje em dia ver um filme é apenas um clique. Antes era uma coisa plana. Com o VHS os filmes tinham dimensão, tinham peso, tinham presença. Escolher um filme era toda outra responsabilidade. Era uma decisão com impacto. Davamos outro valor. E por maior que fosse a nossa colecçãol o videoclube era o lugar em que tomava essa decisão para novos filmes. É o género de filme que tem efeito retardador. Vai parecer melhor com o tempo porque à medida que o esquecemos só vamos recordar as melhores partes dele e as sensações que causou. Quanto mais se gosta de cinema, mais consideração se terá por esta homenagem. Filmes Filmes 2025 Cinema Sobre CinemafamíliaNuno ReisVideoclube