O Velho e a Espada Nuno Reis, 29 de Outubro de 202511 de Janeiro de 2026 Depois de uma longa digressão por festivais, eis que “O Velho e a Espada” estreia nos nossos cinemas. Não é o típico filme que se veja sem preparação, muito menos um que se veja depois do trailer. Portanto, vamos mergulhar um pouco no que é isto. Um monge caminha algures na Beira Baixa. Ele nada teme, pois tem Deus no seu coração e uma espada do demónio às costas. E o que importa fixar, é aquilo que não passou despercebido na frase anterior. É muito estranho este estilo de filme estrear em sala, pois é uma homenagem ao cinema série B. Normalmente é para um público de nicho. A estreia comercial tem os seus riscos. Quem não o viu em festival, é melhor levar um grupo para ir ver. A experiência será melhor do que nas habituais salas praticamente vazias em que se tem visto cinema nos últimos anos. Mas também é um filme extremamente português. Seja pelos diálogos impossíveis de traduzir, ou por pequenos detalhes da narrativa, nunca poderia passar por outra origem. Também porque, ao bom estilo português, fizeram o filme com muito poucos recursos. Sendo honesto, os primeiros cinco minutos dão uma sensação que foi má escolha. Fez lembrar vários filmes amadores vistos há 25 anos pois em termos narrativos e visuais, não evoluiu desde então. Até que, surge o Tonho em cena. Com este novo protagonista, o filme deixa de tentar ser sério, e começa a parecer puro improviso. Ganha uma frescura diferente. Temos situações caricatas constantes no conflito entre a luta pela humanidade e a realidade de quem não vê. Metáfora pouco discreta das dificuldades de aceitação dos alcoólicos. Um detalhe muito importante é a espada. Figura central da narrativa e com imenso diálogo, por não ter expressões faciais (só um olho que brilha) transmite tudo no tom de voz. E exaspera com o seu portador que muitas vezes dispensa a ajuda. Isso permite muito humor, mas também algumas tiradas filosóficas muito adequadas a uma criatura centenária. Enquando os humanos por vezes desiludem, a espada está sempre bem. Ao fim de menos de uma hora, já o filme está a terminar. Parece abrupto, mas também subitamente atira uma ideia económica para encerrar a narrativa melhor do que começou e perfazer uma hora. É quando se percebe o que Portugal tem de melhor. A capacidade de fazer muito com pouco, de rir de si mesmo, de ignorar as normas, e de reinventar tudo o que seja preciso. É obra criar um filme que é ao mesmo tempo sobre um drama da realidade e uma comédia sobre fantasia. Os série B nacionais costumam ser curtas. É bom de vez em quando sair uma longa para mostrar que se pode fazer mais. Mas sem exageros. Tal como este filme se ficou por uma hora por não ter conteúdo para mais, não acredito que tenhamos público para um destes todos os anos. Este é um fenómeno isolado que não se vai repetir por algum tempo. Vejam agora, ou esperem para sempre. Filmes Filmes 2024 demóniosfolcloreGuerreirosMOTELx 2024Nuno Reis