ORWELL: 2+2 = 5 Nuno Reis, 25 de Novembro de 202510 de Janeiro de 2026 Quando Bradbury numa obra distópica disse que o fundamental era salvar os livros, cada um dos leitores imediatamente pensou nos imprescindíveis. Aqueles cujas frases já vivem nas nossas memórias e aos quais não seria difícil juntar mais algumas páginas. Alguns autores são incontornáveis e mesmo que não se memorize palavra por palavra, reconhecemos o que disseram a qualquer momento. Orwell é dos poucos autores que criou pós-verdades para o bem. A matemática sofreu muito. Seja na teoria dos conjuntos com “todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros”, ou na aritmética Euclideana com “2+2=5”. Vindo de outro qualquer, tal resultado seria ignorância. Vindo de Orwell, é um alerta. Não é das frases mais memoráveis do autor, mas tem um peso imenso para quem leu ou viu “1984”. Foi essa operação a escolha para dar título a este documentário. Por um lado é uma alteração pequena. A unidade mais pequena. Por outro, é uma operação tão básica que devia ser óbvio que está errada. Aceitar que seja correcta, é a corrupção dos mais básicos sentidos e pensamentos. Orwell foi um escritor toda a vida. A base deste documentário é como que um diário seu, através de várias cartas enviadas. Vai sendo intercalado com passagens das suas obras e cenas contemporâneas que as representam. Porque se “1984” quando foi escrito era a quatro décadas de distância, também hoje está a quatro décadas. Neste documentário vamso ver como tudo o que foi anunciado se tornou realidade. Pegando em exemplos que começam na Guerra Civil Espanhola (onde Orwell esteve) e na destruição pós-Segunda Guerra, chega até aos nossos dias, com Iraque, Afeganistão, Burma, América Central, Ucrânia e Palestina entre muitos outros. Vemos Novalíngua. Vemos manipulação da História. Vemos mentiras inconcebíveis a serem aceites como verdade. Vemso como o mundo está perdido. É uma crítica à política actual. Ao desrespeito pelo ser humano. À busca incessante por riquezas inimagináveis esmagando tudo e todos. Não sobre o dano ambiental, mas sobre o dano social. É um grito desesperado para que se acorde. Está muito apoiado na versão de Anderson, mas vai buscar imagens a dezenas de fontes, tanto na ficção como nas notícias. O foco maior é na América de Trump, mas fala de vários problemas por aí. Este filme recorda que George Floyd e Jamal Khashoggi deixaram de respirar porque a opressão foi além do razoável. Ainda que os detalhes do século XX sejam bem conhecidos, é importante ter enquadramento com a literatura. Detectar os padrões. A História repete tão bem a ficção que chega a ser assustador. Orwell não devia ter deixado um manual tão completo de como chegar a Grande Irmão… Grande edição, excelente escolha de narração (Damian Lewis) e uma vida deveras singular, de quem começou por ser parte da opressão, até perceber que tinha de fazer algo por um sistema mais justo à escala mundial. Não o fez, mas inspirou e inspira constantemente outros para o fazerem. Não é um filme que se recorde por si mesmo, mas é um lembrete pelo que é dito consistentemente. As pessoas precisam de se lembrar do código moral. Que há mais gente no planeta. E que somos todos gado dos grandes interesses sejam eles chamados de Grande Irmão, Querido Líder, ou qualquer outro nome. Sempre que o poder não roda, a camada de baixo é espezinhada. Ontem já era tarde para começar e “Tudo o que importa já foi escrito”. Filmes Filmes 2025 George OrwellNuno Reis