Peter Pan & Wendy Nuno Reis, 2 de Maio de 202311 de Agosto de 2025 My time for joy is lost. Everything I could have been has been reduced to this. Existem contos infantis que são eternos. Outras histórias, nem tant0. Isso verificou-se com a vaga criativa dos ingleses, inspirada pelo êxodo das cidades durante os bombardeamentos da Segunda Grande Guerra. Vários livros aproveitaram ao máximo a situação trágica e criaram apelativas situações no campo, também como forma de manter a moral elevada e as crianças entretidas. Por isso tivemos camas que voavam até ilhas mágicas e armários para Narnia. E tudo isso foi transformado em filmes. Algumas obras anteriores foram metidas nesse mesmo saco. Como os mundos mágicos para onde Alice e Wendy viajam. Só que enquanto o País das Maravilhas era um local onde a lógica não existia e tudo era permitido – um escape das convenções adultas – a Terra do Nunca é apenas um local para as crianças que não querem crescer. Um local questiona a lógica adulta, o outro questiona se a vida adulta tem algum apelo. Já vimos diferentes versões de todos esses mundos. Algumas fiéis ao livro, outras completamente diferentes. E apesar de Wonderland ser um desafio muito maior que Neverland, as adaptações foram sempre mais felizes. Este regresso da Disney ao mundo mágico das crianças perdidas seria relativamente fiel à animação. O que podia ser um problema. Porque o filme nem foi um fenómeno na altura, nem teve sequelas de sucesso, nem outras versões se saíram melhor. Tirando o relativo sucesso de “Hook”, parecia uma história condenada a ficar em livro. Até alguém achar que havia outra perspectiva. Que se deviam focar mais em Wendy e na sua insatisfação com o crescimento do que nas crianças. Fazer a ponte entre o papel de irmã mais velha e o de criança. Portanto, esta Wendy é quase uma Alice. Conhece Peter e companhia das histórias que ouviu, mas tem dificuldades na parte de imaginação. Tudo0 lhe parece estranho. E o que aquelas crianças precisam, é de uma mãe. Será Wendy capaz de assumir responsabilidades de crescida para salvar a infância dos outros? Este elenco era relativamente descobnhecido. Jude Law como Hook e Jim Gaffigan como Smee eram os nomes maiores de um elenco principal muito jovem e relativamente inexperiente. Alexander Molony estava a ter o seu primeiro papel principal à frente das câmaras. Ever Anderson já tinha sido a versão jovem de Milla Jovovich e Scarlett Johansson nas suas sagas maiores, mas nada mais. A tarefa de David Lowery, bem acostumado a trabalhar com crianças e com a Disney, não seria fácil. E portanto, correu riscos. A história é fiel enquanto pode, ajustando um pouco aqui e ali, mas depois começa a tornar-se muito negra. Demasiado para um filme infantil. O que vamos ter aqui não é apenas o embate entre infância e adultice. As crianças não querem crescer porque acham que ser adulto e responsável é mau. Hook quer destruir as crianças porque a sua infância foi má. Sem repararem que, enquanto não aceitarem tudo o que foram, são, e serão, não poderão viver uma vida plena. Toda a leveza que o filme podia ter desaparece num ápice. Sobram apenas a melancolia e pensamentos infelizes. Pegou em tudo o que era dramático na animação, multiplicou isso, e descartou o que era mágico e bom, incluindo as criaturas mágicas. Sobram algumas piadas do original, mas que mal se reconhecem entre as trevas da narrativa. E no final, o que vimos? Que Wendy é independente. Capaz de argumentar contra qualquer adulto sem receio. De enfrentar todos os seus medos e dar o exemplo. E que Peter não é o herói ou o líder das histórias. É apenas um símbolo. Mística. Compete a cada um lutar por si e talvez preservar as lendas para inspirar os próximos, mas não acreditar que as lendas farão algo por nós. O mais triste é que tudo isso era verdade em todas as outras obras. O Peter que perdeu a sombra era uma criança. Porque esperávamos que se tornasse habilidoso com uma mera mudança de geografia? Aqui fica tudo claro. Muitas fadas vão morrer e número nenhum de aplausos as conseguirá salvar. Filmes Filmes 2023 Nuno Reis