Planète B Nuno Reis, 20 de Setembro de 202423 de Outubro de 2025 Será que algum dia nos vamos libertar do trauma do confinamento? Quando fui ver este filme, achei que seria ficção-científica. Algo sobre descobrir um segundo planeta capaz de albergar vida. Talvez viagens espaciais. Na verdade era sobre a criação de mundos. Só não envolve mundos físicos. Em 2039 a França está a braços com uma revolução mais violenta que os habituais carros queimados e utiliza meios bem opressivos. Existe uma resistência bem organizada e anonimizada. Quando estas duas correntes se cruzam, há mortes. Um dos meios utilizados para obter informação dos prisioneiros, é uma prisão virtual. As pessoas ficam a viver numa ilha paradisíaca de onde não conseguem sair. Julia (Adèle Exarchopoulos) é uma das primeiras cobaias. Querem que ela lhes dê nomes, mas é um osso duro de roer. Entretanto, uma mulher (Souheila Yacoub) que estava apenas a tentar fazer uns trocos, acaba a hackear o sistema e a estabelecer uma linha de comunicação paralela. Ambas desconfiam da coincidência, e ambas têm muito a perder, mas vão unir forças para perceber o que se passa. Um detalhe importante de partilhar é que a realizadora Aude Léa Rapin, antes de começar no cinema, era fotógrafa. E depois foi documentarista. E não fazia trabalhos fáceis. Esteve nos Balcãs a cobrir a guerra e em África. Sabe o que é uma sociedade destruída, uma ditadura implacável, milhões de vidas destruídas, vozes que clamam e são ignoradas. A realidade é uma excelente inspiração para a mais tortuosa ficção. Pegou em tudo isso para fazer o filme. O detalhe de haver uma mulher forte a tentar mudar o mundo e uma refugiada a tentar passar despercebida não são afirmações de feminismo. São visões do que se passa no mundo. Além de toda a mensagem política, o filme também fala de isolamento. De não poder falar com as pessoas à nossa volta. De estar ligado, mas sem ter contacto físico. E de como a melhor experiência virtual não se compara à real. Não foi coincidência. A nossa sociedade está a mudar de várias formas. Tem vindo a perder valores lentamente, mas com o covid também perdeu humanidade muito rapidamente. De uma perspectiva tecnológica, há alguns detalhes onde podiam ter sido melhor aconselhados. Não sei é se mudando isso teriam o mesmo filme. Por vezes temos de trocar a FC pela fantasia e aceitar o que eles nos sugerem como um futuro possível. O filme no seu todo funciona e tem incríveis paisagens, mas podia ter sido um pouco mais curto. Estou curioso se voltará a passar em algum sítio. Filmes Filmes 2024 DistopiaMOTELx 2024Mulher forteNuno ReisRealidade Virtual