Play Dirty Nuno Reis, 30 de Setembro de 202524 de Outubro de 2025 A personagem literária Parker já teve várias vidas. Foram mais de 20 livros da autoria de Richard Stark (heterónimo do também prolífero Donald Westlake) e meia dúzia de filmes. Foi interpretado por nomes que fariam sentido no papel como Mel Gibson, Jason Statham, mas nenhum filme vingou. Até que, mais de uma década depois, voltaram a tentar. Apesar de o marketing não ser forte a antecipar lançamentos em streaming, as primeiras informações disponíveis criavam as maiores expectativas de sempre para a personagem. Mark Wahlberg também parecia perfeito para ser Parker. A realização de Shane Black era uma escolha óbvia. E o argumento além de Black também incluia a dupla de “Road House” e um deles tinha sido seu co-autor em “The Nice Guys”, ambos filmes a serem aqui cobertos brevemente. Todos os envolvidos capazes de fazerem acção convincente e sem medo de usar humor. Com o bónus de ter Keegan-Michael Key. Quem o chamaria se não fosse para comédia? (com excepção do mesmo Shane Black em “Predator”, mas façamos de conta que esse filme não existe) Neste filme, Parker reune uma nova equipa para um pequeno golpe. Meio milhão de um hipódromo. Parece fácil. O problema é que algumas coisas não correm como planeado. O que era fácil, rápido e discreto, torna-se caótico, sangrento, mediático e trágico. Isso vai levar Parker numa dupla missão de vingança e, ao mesmo tempo, a preparar o maior golpe de sempre. Só que o tempo é mínimo e portanto vai ter de recorrer a gente em quem confia. Quase. Quem não souber ao que vai, terá uma grande surpresa. Neste filme o crime é sólido, e o humor que surge lentamente, depressa ganha protagonismo. Mark Wahlberg está igual a ele mesmo. Herói de acção de bom coração. Seja isto filme isolado, ou primerio de muitos, a personagem ficou bem entregue. Rosa Salazar tem uma personagem que podia ser complexa, mas acaba por ser estereotipada. Deixa a sensação que teria mais para dar. E depois temos vários outros a rechear o elenco. LaKeith Stanfield e Keegan-Michael Key a elevarem grandes personagens. Claire Lovering a ter aqui uma pequena oportunidade para brilhar. Tony Shalhoub como vilão acabou por ser a maior surpresa, mas foi curioso. Contudo, o prato forte foi mesmo o humor. Com personagens que se mantêm sérias em situações que é difícil manter a calma, “Play Dirty” recupera muito do que fez Shane Black dar nas vistas há quarenta anos como argumentista dos “Lethal Weapon” e há vinte como argumentista/realizador de “Kiss Kiss Bang Bang”. Manter sempre o humor num filme é difícl. Manter a qualidade desse humor alta, quase impossível. E combinar com outros géneros só complica a missão. Por isso o truque foi o filme parecer sério, e o humor surge como “imprevistos”. Algo que explode ou descarrila, não é para fazer as personagens rirem. É uma alteração imprevista a um plano já difícil e causa muito descontentamento. Claro que Grofield sendo actor tem de ter momentos artísticos. E Mackey só tem momentos loucos. E Kincaid é o escape cómico. Mas os outros são bastante sérios. Aliás, não se coíbem quando se trata de descartar personagens que pensamos que iriam durar mais. Por muito que eu seja um apreciador disso, percebo que os estúdios possam querer preservar os nomes sonantes. O livro talvez esteja datado. A velha história do general ditador de um país sul-americano indefinido começa a cansar. Algumas das referências (como o número 12) parecerão pontas soltas para quem não o conhecer, mas faz parte das particularidades da personagem. Apesar disso, “Play Dirty” funciona como filme. Embora tenha duas horas e seja bastante longo, o tempo passa a correr. Algumas cenas poderiam ter sido excluídas, no entanto, a edição final não desilude. O humor consegue não ser exagerado. Apenas um dos momentos pareceu abusar, porém, como é quase no final, isso é aceitável. Portanto, se quiserem seguir o exemplo de um Dirty chamado Harry e fazer mais alguns filmes, façam favor! Filmes Filmes 2025 Amazon PrimeNuno Reisplano inteligenteroubo