Reawakening Nuno Reis, 28 de Dezembro de 202528 de Dezembro de 2025 Um filme sobre a perda e o reencontro O cinema gosta de se focar no tema dos desaparecimentos. Normalmente como policial ou thriller, às vezes até como horror, e por vezes na forma mais simples: o drama. Já se falassemos da perda, a ordem seria contrária. Esta proposta britânica vai mergulhar nestes temas e causar sensações inesperadas. Tudo começa quando John e Mary vão à televisão fazer um apelo. A sua filha Clare está desaparecida há dez anos. Muitos teriam desistido de procurar, desistido de ter sequer esperança, mas eles ainda esperam. Qualquer pista que seja dada à polícia renova a esperança. Quando John vai ao centro de apoio aos sem-abrigo com novos planfletos, recebe uma rajada verbal ofensiva de uma das novas caras. Nem assim perde a compostura ou ergue o tom. Está calejado por dez anos de acusações vindas de estranhos no mundo físico e no virtual. Mas um dia ao chegar a casa há uma grande novidade. Clare está lá, a falar com Mary. A investigação policial tem o ritmo de algo que se esperaria após dez anos sem pistas. Uma ou outra peça solta que pode ou não estar ligada ao caso. Não o suficiente para lhes dar esperança, o suficiente para os manter a sofrer. O filme sabe que o espectador mediano está informado sobre estes casos. Sobre os procedimentos em casos de desaparecidos, sobre possíveis fraudes… Também o casal está, mas Mary não quer fazer nada que afugente a filha. E John não está nada convencido. A suposta Clare tem algumas memórias, mas os sentimentos não correspondem ao que John recorda. Será porque a adolescente era implicativa e agora que serenou aceita a realidade? Ou os tempos complicados foram o suficiente para dar valor a coisas simples? Ou será apenas uma mentira com lapsos? A maioria da narrativa está nos ombros de Jared Harris, que expressa os sentimentos no rosto e com a ocasional explosão emocional. É um papel aparentemente discreto, mas que o espectador atento pode desconstruir em muito mais do que vemos à primeira vista. Um dos seus melhores papéis em muito tempo. Do lado oposto está Erin Doherty como Clare. Uma presença discreta, não como se continuasse ausente, mas como um fantasma. A Clare adolescente que desapareceu ainda está nas suas mentes. A Clare adulta que apareceu é tímida e não se quer intrometer demasiado nas suas vidas. Já Juliet Stevenson (Mary) tem um papel muito discreto, mas com uma cena poderosa. É um filme que não quer ensinar algo de novo. Serve apenas para fazer pensar e sentir. Para dar valor ao que se tem. Simples e eficaz. Filmes Filmes 2025 Criança desaparecidafamíliaNuno Reis