Reflet Dans Un Diamant mort Nuno Reis, 18 de Janeiro de 202618 de Janeiro de 2026 Um espectáculo visual ímpar O casal Hélène Cattet e Bruno Forzani gosta de fazer obras únicas. Que marquem o espectador e fiquem na memória. Ainda que “” tenha sido uma presença habitual em diversos festivais, as duas longas seguintes foram bem mais discretas. À quarta foi de vez e além de irem pela terceira vez a Sitges, estiveram também em Berlim, Neuchatel, Tribeca (o a sério) e no IndieLisboa. Era o relançar de uma carreira que nunca tinha arrancado como deve ser. John Diman, um espião agora com 70 anos e reformado, aproveita a vida como hóspede permanente de um hotel na Côte d’Azur. Uma das melhores partes do seu dia é observar a sua muito mais jovem vizinha em bikini. Quando ela desaparece, ele começa a recordar eventos passados nos anos 60, quando agentes secretos e nomes de código eram a norma. Mas as memórias de John não são muito claras. Por vezes é um agente sedutor com missões secretas e belas mulheres à sua volta. Outras vezes é um actor num filme com essa temática. E os crimes foram cometidos por outro, ou é ele nos seus episódios de menos lucidez que os pratica? Este argumento (da mesma dupla) anda principalmente no território do surrealismo. Tem momentos é que nos atira para um James Bond clássico (principalmente Diamonds Are Forever), noutros é uma homenagem ao cinema ou à banda desenhada. O espectador além do enorme impacto visual – feito para saturar os sentidos – e da complexa teia de eventos para desemaranhar em pouco tempo, tem ainda de mergulhar em memórias que não são suas, em manobras de marketing para lançar um filme, em crimes que podem não ter acontecido, e nas fantasias de um idoso que pode estar senil. Tal como um diamante tem várias faces brilhantes e nos ofusca, também o filme quebra com o linear. Cada cena é bela. Cada corte profundo. Podemos estar perdidos na história, mas estamos fascinados com a parte visual e tão confusos como a personagem. E claro, quando achamos que já nos acostumamos ao estilo começa a constante troca de actores para as personagens. Por vezes os planos são tão próximos que não temos contexto e quase fazemos parte da cena. Há quem o compare a um caleidoscópio, mas isso não basta. Porque não é apenas visual. Prefiro a corrente que o define como psicadélico. Porque ataca os sentidos. Quando ao que tenta transmitir, será melhor perguntar a Maria de Medeiros que entra num filme. Pode ser interpretado como a demência a tomar conta de um homem idoso e só. Pode ser uma metáfora do que os novos meios estão a fazer ao Cinema, uma arte ainda tão jovem mas já o velhinho. Ver este filme é uma experiência tão eterna como os diamantes, mas a memória não ajudará a saber de que tratava. É preciso ver com máxima atenção e dá vontade de recomeçar ainda a meio pois algo, algures, foi perdido. Filmes Filmes 2025 Cinema Sobre Cinemaespiões reformadosLoucuraNuno Reispraiavelhice