Rule Breakers Nuno Reis, 13 de Fevereiro de 202612 de Fevereiro de 2026 O filme que representa os meus últimos anos Alguns dos nossos leitores saberão que eu tenho uma vida além do cinema. A tecnologia tem sido o meu passatempo desde jovem (não muito jovem, afinal, sou um millennial) e o meu ganha-pão ainda antes de acabar os estudos. Ao fim de uns anos consegui algum estatuto no meio e o destino levou-me àquele ponto em que sabemos que não temos como subir mais, temos de começar a puxar os outros. Nos últimos três anos e meio assim o fiz. Quase por acaso juntei-me às Raparigas do Código quando estavam a iniciar o ensino de OutSystems a mulheres que queriam mudar de carreira. Quis mais do que arranjar-lhes um emprego. Quis que vissem o seu valor. Participaram em algumas competições internacionais e ganharam prémios. Ainda ouvem comentários sobre serem miúdas e sobre não terem as bases, mas aprenderam a filtrar e a ouvir apenas quem reconhece que estão a fazer as coisas bem. Arranjam empregos e surpreendem por terem preparação. Não são um objecto decorativo, são um elemento valioso da equipa. Algumas até já lideram a equipa. Contudo, estamos num país evoluido onde, apesar de alguns telhados de vidro e piropos, uma mulher pode estudar, pode ir a conferências, pode candidatar-se a empregos, pode ter uma vida independente. Em alguns países não é bem assim. Esta é a história verdadeira de uma menina no Afeganistão que um dia ousou sonhar. O pai disse que ela tinha tanto direito como os rapazes de usar um computador, mas a escola não concordava. Já adulta, Roya voltou a tentar e o proprietário de um cyber-café que precisava de ajuda com a máquina diabólica aceitou fechar os olhos enquanto ela e a irmã exploravam. Daí à universidade foi um instante. Depois estava a começar uma startup para ensinar raparigas a usarem computadores. E depois sim, começou a entrar no terrítório dos sonhos das outras culturas. A melhor forma de escalar um negócio, é fazer com que as pessoas nos procurem. Se as raparigas que podem estudar, souberem que têm onde estudar, a única dificuldade fica em chegar às que não podem estudar. E por isso Roya vai ter como objectivo estar nas notícias. Vai fazer de quatro raparigas afegãs o rosto do país. Para isso, basta vencerem provas internacionais contra equipas bem financiadas e que nasceram no meio da tecnologia. Enquanto as famílias proíbem, os talibãs ameaçam e todo o sistema parece desenhado para as sabotar. Um detalhe importante sobre o filme é que foi realizado por , um documentarista duas vezes oscarizado. Nota-se isso pois o filme tem uma autenticidade raramente vista. Roya, interpretada pela canadiana , faz aquilo que os mentores reais fazem. Luta até ao fim contra um sistema injusto, para que as suas pequenas acreditem que estão a ter uma oportunidade justa numa prova em que apenas o cérebro é avaliado. Só ela pode saber que a realidade é pior. O seu trabalho é esconder isso da equipa. As dificuldades que ela tem, são bem piores do que as minhas, mas algumas das frases que ela diz, eu disse. E os resultados são parecidos. Uma mulher que se sentia diferente e sozinha no mundo, descobre que tem alguém semelhante. Alguém que tem o mesmo sonho secreto, que sente o mesmo síndroma de impostor, que acha a sociedade injusta e cruel… Mas agora não estão sozinhas. Por umas horas o seu mundo é um lugar melhor. Aos poucos formam uma sororidade. A sua voz não é uma na multidão. Agora são um grito impossível de ignorar. E sempre que uma se ergue do anonimato, é mais um braço disponível para puxar alguém para cima. O percurso pode ser mais longo, mas são mais fortes porque operam em conjunto. Claro que de sonhos impossíveis está o mundo cheio. também foi sobre alunos de uma escola fazerem um veículo para uma prova internacional. A diferença é que aqui caem bombas. Essa parte do filme está sempre presente no tom certo. Constatam que existem opositores perigosos, que as dificuldades de género, culturais e económicas são enormes, mas não deixam que isso controle a narrativa. São uma sombra permanente, mas o foco está nas sonhadoras, não em quem vive preso ao passado. Numa década em que os talibãs voltaram ao poder e as mulheres voltaram a ser silenciadas, tapadas e despromovidas de serem humanas, era fundamental recordar que a mudança não tem de ser imediata. Já derrotaram o sistema patriarcal uma vez e podem voltar a fazê-lo. A diferença é que antes era uma mulher sozinha a combater contra quase todos. Não dá para ignorar quando essa mulher preparou milhares para serem a voz da mudança por gerações. É um filme previsível. Mesmo que não fosse verídico, é a história positiva que queríamos ouvir. Foi aos nove minutos e meio que eu percebi que não tinha como não gostar do filme. Vários detalhes foram simplificados para que o público jovem pudesse acompanhar, mas ao menos o código no ecrã faz sentido (primeiro filme em décadas que posso dizer isso). E é um filme que queremos e temos de ver. Que capacita. Está recheado de frases inspiradoras e saímos da sessão rejuvenescidos e com vontade de mudar o mundo. Seja por nós, pelas nossas amigas, ou para as nossas filhas. Filmes Filmes 2025 MulheresNuno ReisRobotsTecnologia