Sirāt Nuno Reis, 18 de Dezembro de 202511 de Janeiro de 2026 Oliver Laxe tornou-se uma referência quase imediata no panorama do cinema galego. Apesar dos poucos filmes feitos, cada um é um evento. Antes que superasse o seu maior interregno entre filmes (seis anos) lançou “Sirāt“. Um filme passado no deserto marroquino que Espanha submeteu como o seu candidado aos Oscares com motivos para estar confiante. A narrativa tem lugar completamente no deserto. Luis é um pai que procura a filha desaparecida. Arrastou o filho pequeno e o cão para um país diferente, com uma língua diferente. E, como se isso não bastasse, procuram a adolescente em raves diurnas onde cada participante é muito estranho. Por ironia do destino, vão partir rumo a outra rave – a última do ano – seguindo um grupo de festivaleiros mutilados e consumidores de drogas. Só que, além de estarem em eventos ilegais, vão ter de evitar o exército pois estão em guerra. À medida que entram no deserto e os bens se tornam mais raros, a esperança vai diminuindo e torna-se uma corrida pela sobrevivência. Antes de entrar em mais detalhes, seria interessante parar para analisar o título. Sirāt é a ponte para o paraíso na cultura islâmica. Mais fina que um cabelo e mais afiada que uma espada, os fiéis passarão sem dificuldades, enquanto os pecadores cairão no inferno abaixo. Aqui a religião é o trance. Luis balança ser um pai preocupado com a filha desaparecida e ser o pai responsável pelo filho que ficou. Não se mete nas drogas, mas acaba por abraçar a música como único escape no meio do nada e entre estranhos. E no entanto, não é nele que a narrativa se foca. Por ser demasiado padrão. Vamos conhecer cada elemento desta excursão e as suas particularidades. Não sabemos quem são nem de onde vieram, mas vamos ver como vivem nesta busca constante por algo. A nível visual é uma maravilha. Ainda que seja mesmo aqui ao lado, faz lembrar o mundo de Mad Max. As paisagens vazias até ao horizonte, as multidões a disfrutar o som. Vários dos actores, com todas as suas mutilações, interpretam-se a eles mesmos, dando uma autenticidade única ao filme. E por tudo isso é um filme muito orgânico. Não segue um argumento rígido, permite alguns momentos pessoais a cada um. No entanto, tem cenas que exigiram uma enorme produção no meio da areia. É uma história que parece linear – um destino, um objectivo – mas em que temos mais do que uma jornada. Temos diálogos simples, temos tempo para reflexão. Sobre o que é família, o que é a humanidade, o que importa. Para muita gente a sua aparente simplicidade vai fazer dizer que não tencionam ver novamente. Outros, vão assistir de forma quase religiosa. Percebe-se ambas as perspectivas. É um filme que não exige um estado de espírito para ser visto. Consegue levar cada um até esse estado e depois surpreender com a rápida mudança. Cada choque de realidade é um bom soco em quem achava que ia ser só um passeio, música, e um feliz reencontro. Cada situação é mais pungente que a anterior. Este filme é arte. Filmes Filmes 2025 adolescentesdesertoMúsicaNuno Reisviagem em família