Sovereign Nuno Reis, 29 de Dezembro de 202514 de Janeiro de 2026 Todos sabemos que o mundo está cheio de pessoas avariadas da cabeça, mas os EUA conseguem reunir uma colecção deveras impressionante. Um dos conceitos mais interessantes é o dos cidadãos soberanos. De forma simples são pessoas que se acham isentas das leis que se aplicam aos outros. Coisas como ter uma cartas de condução ou pagar impostos não são para eles. Ainda que existam algumas pessoas que sempre seguiram essa doutrina e vivam isoladas da sociedade, a grande maioria são pessoas que querem ter todos os benefícios e nenhuma da responsabilidade. Este filme vai mergulhar muito ao de leve neste tema e mostrar a existência complexa de um desses cidadãos soberanos. Vamos começar por conhecer Joe, um adolescente que está sozinho em casa quando recebe a visita da polícia com uma notificação de despejo por falta de pagamento da hipoteca. Quando o pai Jerry chega, explica ao filho que não reconhece a dívida do banco, nem as autoridades. Também partilha esses ensinamentos com outros num podcast e em eventos presenciais. Desta vez leva o filho e a cadela numa digressão. Até que um confronto corre mal e Joe começa a ver outra perspectiva do mundo. Todas as séries policiais de duração suficiente costumam ter um episódio sobre este género de pessoas. Normalmente representados com o nível de alerta de uma seita ou uma organização terrorista. Mas a verdade é que em separado são relativamente inofensivos. Sim, pegam em armas para defender o seu ponto de vista – são os EUA, as armas são usadas para abrir a porta – mas no dia-a-dia a polícia e a justiça costumam resolver pacificamente. Este mergulho na visão paranóica de um cidadão soberano é-nos entre magistralmente por Nick Offerman que tem o aspecto perfeito para o levar a cabo. Tem uma figura imponente, um tom autoritário, e é convincente. O argumento vai levá-lo numa viagem pelos lugares-comuns e pontos de confronto desta vida para termos a visão que é normalmente ignorada. Uma parte do filme que é convincente o suficiente para converter algumas pessoas menos perspicazes. Percebe-se porque alguém em dificuldades financeiras ou legais gostaria de fazer os problemas desaparecerem por magia dizendo que a lei ou o contrato não são válidos. Segue os passos das teorias da conspiração, anti-governo e anti-ciência. Pegam em frases específicas e constroem uma narrativa conveniente em torno disso, ignorando o que não é útil para a narrativa. Do lado da lei temos Dennis Quaid e Thomas Mann. Mostrados como agressivos, mas cumpridores. Certos que o conflito é inevitável e devem estar preparados para ele. É uma visão demasiado correcta dos oficiais, mas o foco aqui estava do lado dos marginais. Não podiam mostrar a lei com uma luz negativa. Focaram-se no lado humano e na vida para lá do uniforme. Uma boa decisão atendendo ao pouco tempo que tinham em cena. Era preciso mostrar pessoas normais, que obedecem às regras e as fazem cumprir. A visão intermédia é a do nosso protagonista, Joe. Segue os ensinamentos do pai à letra, mas à medida que se aproxima da idade adulta, algumas coisas fazem menos sentido. Quando os serviços sociais o entrevistam e avaliam, questionam várias das crenças. A faculdade faz pedidos razoáveis que para ele se revelam quase impossíveis. E à medida que a relação do pai com a sociedade se vai deteriorando – até parece perder seguidores – começa a ter um discurso mais agressivo e radical. Também uma grande interpretação de Jacob Tremblay, um miúdo que cresceu a fazer cinema (““, ““, ““, ““, “” e vários outros) e agora que está prestes a sair da adolescência continua a convencer. É um filme para colocar questões. Pode ser que alguns dos que seguem esta filosofia entreguem algum dinheiro real para ver o filme e não digo que sejam convertidos, mas que ganhem alguma vergonha na cara. É que um filme destes como ficção seria exagerado, mas é baseado em histórias reais e por isso urgente falar do tema. Pensar nas consequências de se viver às custas dos outros. Vai ser recordado principalmente por Tremblay. Filmes Filmes 2025 famíliaNuno ReisPolícia