Springsteen: Deliver Me from Nowhere Nuno Reis, 23 de Dezembro de 202514 de Janeiro de 2026 Uma das séries televisivas mais impactantes no cinema no momento em que vivemos é “The Bear”. Depois de termos escrito sobre um par de filmes este ano com Ayo Edebiri (e também um em que era para ter entrado, mas a agenda não permitiu), chegou a vez de ver o que Jeremy Allen White tem feito. A verdade é que em 2024 e 2025 só lançou um filme, “Springsteen: Deliver Me from Nowhere”. Lançado há exactamente dois meses, esta obra vai além do que temos visto em biopics musicais. Não vai ser um retrato da sua vida ou carreira. Vai ser uma espécie de terapia. Porque se foca numa fase específica da obra de Springsteen – o início dos anos 80 quando estava a compôr o álbum Nebraska. O filme começa da forma convencional. Com uma infância traumática, um concerto, tudo indica que vai seguir a fórmula. Mas depressa muda. Vai-se focar no processo de composição e nas opções que um jovem Bruce toma, não por manias de grandeza, mas por não saber lidar com o que se estava a passar e com quem era. Vamos ter mais uns flashbacks da infância para contexto, mas o foco principal está no adulto. E estranhamente, no seu agente. Jeremy Strong tem uma performance discreta como o homem que resolvia, coordenava e geria o ego e os desastres. Respeitando o artista, mas informando do impacto de cada estranha decisão. Um amigo contratado que se torna o salvador. Ele sabia que a digressão terminada recentemente podia ter algum impacto. Mas ninguém estava preparado para isso. As comparações com o no ano passado são imensas. Começando por ser outro artista que fugiu às expectativas da indústria, mas cativou o público. Por ser alguém que compunha para outros, mas guardava os êxitos para si. Por ser alguém que, para quem escreveu o filme dispensava apresentações, mas o público actual só conhece de nome e desconhece a história de origem. A escolha de White foi intencional e pelo próprio Boss por ter simultaneamente o visual de estrela do rock e a angústia. Alguém que é celebrado por todos e até merece o crédito por isso, mas carrega uma sombra. E um detalhe importante, o facto de terem condensado várias namoradas numa personagem genérica. Reconhecendo os erros da relação, mas não querendo sobrecarregar alguém do passado com memórias íntimas no ecrã. Scott Cooper foi uma excelente escolha para realizar. Por ter feito , por fazer filmes sobre a América profunda (ainda que este seja quase todo em New Jersey e Los Angeles), mas sobretudo para dar espaço para a história crescer. Cada flashback ajuda um pouco a perceber de onde vem e o que sente, mas isso não nos podia ser atirado à cara. Tinha de causar as emoções. E ainda que o filme por vezes perca o espectador, as emoções estão sempre no sítio certo. Nebraska foi um álbum arriscado e o filme focar-se apenas nisso era ainda pior. Mas a explicação foi convincente. Ajuda a conhecer o homem e a obra. Tanto essa como outras. Por exemplo “Born in the USA” que também lhe saiu da cabeça na mesma fase e foi arrumada por não ter interesse. Springsteen foi a voz de uma geração. Este filme mostra como encontrou a sua. O resto da vida? O resto é história. O importante era parar e falar de saúde mental, de pedir ajuda. Por isso, mais do que uma biografia, é uma oportunidade de alguém dizer “até o Bruce precisou de ajuda, eu devia fazer o mesmo”. Serviço público. Filmes Filmes 2025 BiografiadepressãoMúsicaNuno Reis